Visita Ecológica


 

Pelo terceiro dia da visita guiada pelo professor doutor Jorge Paiva, rumámos à Costa de Caparica, mais precisamente à entrada da praia do Rei, oficializada pela presença de um restaurante com o mesmo nome. Percorremos um passadiço de madeira que conduz a um outro bar, dos tantos que refrescam veraneantes e sustentam a animação nocturna nestes areais.
Nesse percurso, fomos conhecendo algumas das plantas que despontam nesta duna móvel: a perpétua das areias, o cardo marítimo, a couve-marinha, a murganheira das praias e o estorno, talvez uma das espécies mais importantes ou visualmente mais presente (encontra-se na primeira linha fronte ao mar) na sua função de fixação das dunas.

Tratando-se de uma duna móvel, estas plantas ajudam a uma melhor fixação da duna que, por sua vez, é sem dúvida o primeiro travão para as investidas marítimas.
A segunda paragem levou-nos à Arriba Fóssil, uma duna fixa que revela bem esta sua característica pelo próprio porte das árvores, no fundo são as suas raízes que fixam a duna, no entanto, nalguns pontos se verifica que quando se destrói o ecossistema a areia retoma o seu lugar.

Desde logo se percebe que as dunas são um ecossistema bastante frágil pois depende de uma interacção “saudável” entre as marés, o vento e as plantas.
Verifica-se, no entanto, e a Caparica é bom/mau exemplo disso, que a maioria dos bares se implantam justamente sobre as dunas, esventrando-as sem que haja o respeito, quiçá o conhecimento sobre a importância que as mesmas têm para a preservação do areal da praia. É minha percepção que o indivíduo comum desconhece que estas dunas se comportam dinamicamente num equilíbrio entre acumulação de areia varrida pelo mar e pelo vento e reposição da mesma na praia. Só este desconhecimento e o lucro fácil justificam proliferação destes bares como se o desafio ao mar não fosse pago pela destruição que o mesmo inflige nessas construções; não só vimos o exemplo do restaurante em queda eminente na Lagoa de Albufeira como há o caso recente na linha das praias de S.João de Caparica, onde várias construções deste tipo cederam às águas.


Estorno (Ammophila arenaria)


Camarinha (Corema album)

Este avanço do mar, transgressão marinha, é no entanto um fenómeno natural assim como outrora foi a regressão marinha, fenómeno que deu origem à emersão da área onde hoje existe a Costa de Caparica. A segunda paragem levou-nos à Arriba Fóssil, uma duna fixa que revela bem esta sua característica pelo próprio porte das árvores, no fundo são as suas raízes que fixam a duna, no entanto, nalguns pontos se verifica que quando se destrói o ecossistema a areia retoma o seu lugar.

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Couve-marinha (Calystegia soldanella)

Das árvores principais, fixámos o carvalho português (folha larga), o espinheiro preto, a aroeira, o zimbro e o célebre pinheiro manso. Aliás, a Mata dos Medos constitui-se como uma das grandes extensões nacionais de pinheiro manso; observámo-los, da estrada, ainda pequenos devido ao incêndio que há poucos anos devastou esta mata.
Noutra paragem, alcançámos a falésia, cuja beleza paisagística não cabe em meras palavras. Pelo caminho, fomos reconhecendo a presença do tojo, como leguminosa que enriquece o sistema, a cebola albarram, o trovisqueiro (baga preta), as camarinheiras, o tomilho e aquele cheiro a caril que advém da perpétua das areias. É natural que as plantas mais aromáticas vivam em sítios com pouca água como aqui na arriba; o professor bem a propósito nos lembrou que a cozinha alentejana é aromática pela mesma razão.

Aqui, o pinheiro bravo, virado ao mar, contorce-se à mercê do vento e perde a folha porque é pulverizado pelo piche, devido aos despejos que os navios fazem ao largo. De facto, este é só um exemplo de vegetação destruída devido à incúria do homem. Daqui também se avalia a erosão que abre flancos na falésia seccionando-a nos seus diversos estratos. É aqui que percebemos a destruição da arriba e a importância de se falar na sua preservação e de ser zona protegida tal como a Mata dos Medos.
Esta prolonga-se até à Lagoa de Albufeira, embora este percurso interior seja interdito. Aliás, por esta razão, de toda a área protegida, apenas este sector entre a Fonte da Telha e a Lagoa de Albufeira se mantêm pouco alterado e perturbado.


Estorno (Ammophila arenaria)


Camarinha (Corema album)

Cabo Espichel

Zambujal

 
Cabo Espichel

Da estrada, avista-se o paul onde começa a Lagoa de Albufeira. No areal mais abrigado de passagem, acumulava-se um número indefinível de gaivotas. À berma da água, observámos a força da corrente que chega ao ponto de em quinze dias destruir a duna em que assenta, por enquanto, o restaurante já referido por esta característica, o local presta-se vulgarmente à prática de vela e windsurf.

Seguimos em direcção ao Cabo Espichel, onde não só alargámos a vista pelo horizonte como de novo verificámos o efeito da erosão nas paredes das falésias, chegando mesmo, nalguns locais, a escavar a parte inferior das bermas. Estamos numa zona aberta ao oceano, sujeita aos agentes erosivos marítimos. A pouca distância do promontório, descemos um caminho que, por um lado dá acesso à praia dos lagosteiros, por outro nos conduziu ao ponto de observação das pegadas de dinossauros. Com alguns auxiliares de visão, lá distinguimos claramente, cavados na rocha, alguns trilhos que vencem a barreira temporal e a própria erosão costeira. Mais curioso ainda foi verificar um outro conjunto de pegadas inscritas verticalmente, pensando simultaneamente no fenómeno que terá originado tal deslocação rochosa. Entretanto, quanto à vegetação descobrimo-la neste local tipicamente mais rasteira. A aroeira, o trovisqueiro e o carrasco são muito mais densos e baixos que em relação à Arriba, aqui assumem uma forma arbustiva, parecendo “almofadas”, não direi o mesmo para o carrasco cujo toque é mais agressivo. Também vimos a predominância da esteva, de folha muito gordurosa e a urze roxa que está em flor até Novembro.

Em conclusão, diria que levei desta visita uma visão de futuro porque tomei consciência mais precisa sobre medidas que estão ao alcance de todos para ajudar a proteger os ecossistemas de que, no fundo, fazemos parte. Sabe-se que, a nível mundial, é no litoral que há maior concentração populacional mas para além do aspecto económico, nunca teria pensado que também é nele que há maior biodiversidade e as mais variadas cadeias alimentares. Agora, compreendo o sentido da sua fragilidade resultante da intervenção humana. Por isso justifica-se a educação ambiental, mesmo para além da escola, até porque o progresso científico sustentado pelo grande poder económico já ganhou terreno e em Portugal, um pais essencialmente costeiro, faz todo o sentido trabalhar e preparar a geração futura para a conservação da nossa costa.

publicado por Mário Feijoca às 04:07 | comentar | favorito