Acordar para o sonho...

 

De noite, no meu quarto, quando não estás, dispo-me dos objectos que me rodeiam, fecho os olhos e adormeço com um beijo teu a delinear imagens nas paredes; há o ritmo quente das sensuais melodias que brilham e dançam nos teus olhos, há o exotismo de todas as ilhas do Índico que perfumam e desenham a tua pele, há a energia de todas as marés vivas de vida que se agitam crepitando-te no peito, há o vulcão de flores selvagens que fervilha incandescente nas tuas mãos.

A alvura das paredes é substituída por todo o mundo que inventas com os lábios, os fios de sol, que enfeitam a tua voz, pintam quadros surrealistas de cores e prazer no espaço entre a cama onde repousam os meus sonhos e o espelho onde te revejo. Arde-me a pele por dentro. Procuro a taça de água em cima da mesa de cabeceira, transformou-se num vaso de pétalas tuas, e é por ele que bebo incendiando-me, é com elas que alimento o fogo azul-violeta que me consome e mantém acordado.

É nestes momentos que recordo o teu sorriso e sinto a poesia explodir no peito. Mas nada posso escrever sobre esse sorriso que usas naquela hora nocturna, que apenas nós conhecemos, se com ele desaparecem todas as coisas. Gostava de escrever-lhe um poema, mas, para isso, era preciso que não desaparecessem todas as flores do mundo nos teus lábios, que não se evaporassem da memória o mar e os reflexos de sol no orvalho matinal da primavera acabada de nascer.

Limito-me por isso, a procurar nas palavras que escrevo, a justificação para não ter nunca comparado o teu sorriso a uma onda que se espraia na areia quente de verão, ou a um navio a desenhar sonhos nas águas calmas de um rio - porque não chegam, porque escrever a única metáfora digna desse sorriso, seria reunir toda a beleza do mundo num só verso e repeti-lo infinitamente nos teus olhos, porque, recordar esses momentos, é preencher toda a alma contigo e nada sobrar para os versos.

Mais sereno, acendo o candeeiro que trago na alma e permito que toda a tua luz se estenda até ao mais escondido cantinho de mim. Envolvo-me nos lençóis de ternura que me ofereces todos os dias, pouso a cabeça sobre a almofada onde me confesso e peço às paredes do meu quarto que me protejam de te perder. Antes de adormecer, retiro a tua recordação do meu espírito, deito-a ao meu lado, segredo-lhe baixinho os sonhos que quero sonhar e beijo-a um segundo. Fecho os olhos e acordo para o sonho.

publicado por Mário Feijoca às 18:21 | comentar | favorito