Falte de espaço...

Não vou escalpelizar, mas a intranquilidade que sentia transformou-se numa angustia revoltada e insegura, tudo pelo simples facto, de ambicionar mais espaço, já que, me sentia sufocar, porém, como sempre, o egoísmo tomou-me conta do raciocínio levando-me a tomar atitudes despropositadas, mesmo para aqueles mais próximos, e que julgamos por vezes possuir o dom da simples e desnuda verdade. Desta vez, o balázio saiu na direcção errada, mas talvez justa, por se tratar de um tema onde a ausência por si só, era esperada, mas não desta forma. Acontecem casos inesperados, e longínquos do foro psíquico racional , que nem mesmo estando alcoolizado me passaria pela cabeça tal viesse a acontecer. Mas ao certo, ao certo mesmo, é que aconteceu aquilo que alguma vez eu suponharia vir a acontecer, e aconteceu, logo a mim. Passo a descrever onde tudo dá inicio, e toma o processo do desenvolvimento deste meu estado, meio atónico, e outro meio de perplexidade.
A intenção não era má, quando a ideia começou a germinar nos meus pensamentos, embora eu pudesse vir a beneficiar de alguma usurpação de espaço que tanto ambicionava. Então lembrei-me , vou arranjar uma noiva para o meu irmão... mas como? Mas claro, porque não me lembrei disto antes, e, que local apropriado  seria melhor do que no blogue, se assim pensei, melhor o levei adiante, mas as minhas intenções saíram goradas. Porque nenhuma  moçoila se disponibilizou para me dar esse prazer, de ir ao casamento do meu irmão  mais velho, como noiva deste. Que é uma jóia de rapaz, formado em politica internacional;  mas a timidez entrepunha-se entre a vontade e a necessidade, o que fazia com que eu visse longe a ocasião chegar.

Chego a casa já a noite ia alta, o silêncio pairava em toda a casa como sinal de que o dia tinha terminado, cansado, e sem grande apetite para jantar, vou em direcção à cozinha, quando tropeço na gamela do meu cão, e lá estava ele a abanar a cauda de contentamento,  por finalmente eu ter chegado a casa,  a fazer-se notado na sua presença para ver se eu não me esquecia  que também ele, fazia parte da família, fiz-lhe um festa nas orelhas, como gosta, lambeu-me as mãos e sentou-se há espera.
Estranhei por momentos o seu  comportamento, mas não lhe atribui demasiada importância, pois os próprios cães também  têm dias menos bem conseguidos do que outros, que por coincidência tinha sido o meu caso no dia de hoje.
Abri a  porta do micro-ondas para ver o que tinha para jantar, estranhei o seu interior, pois nele encontrava-se uma omeleta, ou qualquer coisa semelhante a isso, estava meio castanha e desfeita, que mesmo que estivesse com muito apetite, ele certamente se dissipava de imediato com tal aspecto. Optei por fazer uma tosta mista e beber um copo de leite frio.
De seguida dirijo-me para o escritório - e lá ia o Rex, todo contente de cauda a dar-a-dar  a acompanhar-me - ligo o pc, para ver se havia alguma mensagem importante digna de reparo, para depois me fazer em direcção aos lençóis, e descansar, apenas descansar. Engano o meu... abro o mail, e o primeiro que me salta logo à vista é um do meu irmão, que só por esse facto, é logo de estranhar, uma vez que se ele alguma vez me enviou em e-mail, muito sinceramente não me recordo. Li com toda atenção, recostei-me na poltrona, a pensar se aquilo seria alguma partida, debrucei-me novamente sobre o monitor, e reli aquilo que tinha acabado de ler. Que era nem mais nem menos o seguinte: - Mano, não te preocupes com a minha ausência, fui de férias por tempo indeterminado, depois quando estiver restabelecido, e com a minha vida normalizada darei mais notícias, por agora, é tudo o que te tenho a dizer, o resto saberás, certamente pela manhã. ou até antes, despeço-me com um forte abraço, e  não te precipites  em conclusões. Pensei, pronto uma coisa já estava explicado, que era o comportamento algo estranho, que eu tinha feito reparo por momentos, no Rex... E fui me deitar.

Quando fazia os preparativos para despir-me e finalmente me ir deitar, a minha querida mulher acorda, acende a luz do lado da cabeceira dela e diz : - António temos de conversar -  ao qual eu respondi, e tem de ser agora? - tem - diz ela, com uma voz apagada e quase sumida, que era completamente novo para mim tal a entoação. Bem, mediante todo o cenário desde que tinha chegado, por momentos até pensei que se realmente tinha entrado na minha casa, ou se seria alguma com as mesmas semelhanças, mas aí lembrei-me do Rex, e não havia a mínima  hipótese de tal ter acontecido, nem que para isso eu estivesse embriagado, coisa que era raro. - Pronto, se achas que é melhor ser agora, adianta lá, que já estou com formigueiro na curiosidade.  - Prepara-te, que o que eu vou dizer, não é nada agradável, nem para ti nem sequer para mim - bem pensei por momentos, mas em que filme é que eu estou metido (?), e aquilo que me veio ao pensamento não foi nada agradável de sentir, pois não sabia lidar com tal sensação por se tratar de algo inexplicável e totalmente novo para mim. - O teu irmão foi-se embora - já sei, deixou-me um e-mail - sim? e que dizia ele nesse e-mail? - Olha, que ia de férias e não sabia por quanto tempo - há foi? e foi só isso que ele te disse? não te contou mais nada, mesmo nada mais do que isso? - Não! Desembucha mulher, que já estou todo transpirado com a situação - é que o teu irmão foi de férias de facto, e com a minha mãe! - sim, e depois que mal tem? - que mal tem... óh  homem, que mal tem?
E a inocência, ou a despreocupada realidade própria do homem, que nestas situações parecem mais crianças à espera que lhe desembrulhem o brinquedo que lhe acabam de dar, para poderem acreditar que realmente aquilo que ali está é para ele. - Sim e depois que mal tem? - óh homem mas tu ainda não percebeste que o teu irmão foi se embora com a minha mãe para viverem juntos... - O quê? repete lá isso outra vez? É isso que acabaste de ouvir, o meu pai já aqui esteve, e também ainda não acredita tal como tu.

E eu, sorri por breves momentos, devido ao pensamento que me assolou de repente, não só por finalmente ter mais espaço, mas também como, pelo  retrato que eu tinha guardado na minha memória, que agora se encontrava amarelecido devido à marca do tempo, e que precisava de uma actualização mais fiel do original.
Não há duvida nenhuma, que o ser humano é de todos eles,  o ser dos mais imprevisíveis que existe ao cimo da terra. Que o diga o meu irmão.
Que grande meliante me saíste, então tinhas de arranjar logo a mãe da minha mulher, como cobaia para as tuas experiências emocionais...  Se tudo foi fruto de uma paixão envergonhada que se transformou num amor incontrolável... Não sei,  se te condene ou te observe melhor, e de mais perto para entender de uma forma mais lúcida o comportamento dos Homens, não sei mesmo... Porque tudo agora é novo para mim.

Então e eu agora? Fico sem sogra, porque a minha sogra agora é a minha futura cunhada. Logo, se o meu irmão e a minha cunhada ainda tiverem possibilidades de terem filhos, eu serei o tio do irmão ou irmã da minha mulher, e a minha mulher tia da sua própria irmã ou irmão. Nesta arvore genealógica da vida,  vai haver um ramo ou um tronco fora de sitio onde se encontra normalmente, fixado pela lei dos homens conforme a entendemos, e pela sua própria lei da natureza. O que nos obriga a traçar um percurso obliquo-o da própria natureza, e da sua moralidade conforme a conhecemos e entendemos.
Pelo menos para mim!
A minha sogra, a minha sogra. Ela de facto não é nada de se jogar fora (como o macho latino costuma dizer das mulheres de beleza superior)...
É uma mulher muito interessante, tanto física como intelectualmente, com uma cultura elevada, e bastante independente tanto  na forma de pensar, como na de estar, digamos que é daquelas pessoas com quem dá gosto conversarmos. É uma mulher que ronda,  na casa dos cinquenta anos, mas de uma beleza fora do comum, que lhe incute uma jovialidade que em nada se afasta da do meu irmão, que tem trinta e oito anos. Para vos situar melhor no tipo de mulher que é a minha ex-sogra, é assim como uma  Greta Garbo da actualidade ou uma Grace Kelly. É  de facto daquelas mulheres que qualquer homem sensato gostaria de ter, e ao mesmo tempo fugiria para bem longe dela por pensar que se tratasse, não da mão de obra  divina, mas mais próximo de uma discípula de Satanás.
Agora digam-me, posso condenar o meu irmão pelo facto de se ter apaixonado de verdade por uma mulher com tais dotes? Inteligente, doutorada em literaturas portuguesa e francesa, nascida no seio de uma família brasonada e herdeira de uma das maiores fortunas nacionais.
Talvez devido à sua inocência emocional, ou quiçá em busca do perfeccionismo que sempre o motivou, como ser, e como homem o levasse a ter tal atitude. Foi a prenda que se calhar, o meu irmão sempre esperou  que o destino lhe proporcionasse um dia... E talvez tenha sido aquela prenda que por um lado, esperou confortavelmente na sua paciência jovial, e por outro, que quando ela lhe surgisse à frente a tivesse evitado constantemente  de a desembrulhar, como acontece a uma criança.

Greta GarboGrace Kelly

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência, por se tratar de uma história fictícia, que nunca teve lugar, além  da sua própria origem, fidedigna se ter desenvolvido na  minha  imaginação. Porque se na realidade, eu tivesse uma sogra possuidora de tais atributos, quem fugiria com ela não seria o meu irmão, mas sim eu....

publicado por Mário Feijoca às 05:03 | comentar | favorito