Só Pessoa...

Fernando Pessoa havia escrito, com apenas sete anos de idade, estes versos para a mãe:

"Eis-me aqui em Portugal,
Nas terras onde eu nasci,
Por muito que goste d'ellas,
Ainda gosto mais de ti.


Como resposta, três anos mais tarde, Maria Madalena respondeu:

Escuta
 
Dedicado "ao meu Fernando"

És muito criança ainda
Decerto não sabes bem
O valor que deves dar
Ao santo affecto da Mãe!
Queremos muito aos nossos filhos
Todos têm igual direito,
Por todos o coração
Pulsa igualmente no peito.

Todos têm o seu lugar
E são elles tão iguais,
Que no coração da mãe
Todos elles são rivais.
São rivais do mesmo affecto,
Amados com o mesmo ardor,
P'ra todos, igual desvello,
P'ra todos o mesmo amor!

Para todos a Deus pedindo
Com fé igual e anceio,
O futuro é um mystério
O presente é um receio!
Tal é a ancia constante
Que deste amor se alimenta,
Queremos um mar de bonança
Sem um dia de tormenta.

Quando chegares a saber
d'este affecto a intensidade,
Se eu já não for deste mundo
Sentirás funda saudade!
E se um dia tiveres filhos,
E uma esposa carinhosa
Que te torne a vida bella
E aches tudo côr de rosa,
Vendo o amor com que ella
Os seus filhinhos aninha,
Dirás: 'santo amor de mãe
Também era assim a minha!'

E n'esse grito a tu'alma
Nem dôce affecto tributa
Àquela que já não vês,
Mas que de longe te escuta!
E essa justa saudade
Que tu sentes tão intensa
Será do meu santo amor
A sagrada recompensa!"</font>

publicado por Mário Feijoca às 23:53 | comentar | favorito