25
Nov 05

É este o mundo!...

 
: : :  fome  : : :

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O que é a fome ?
A fome é a escassez de alimentos que, em geral, afecta uma ampla extensão de um território e um grave número de pessoas.

No mundo:
Cerca de 100 milhões de pessoas estão sem teto;
1 bilhão de analfabetos;
1,1 bilhão de pessoas vivem na pobreza, destas, 630 milhões são extremamente pobres, com renda per capita anual bem menor que 275 dólares;
1,5 bilhão de pessoas sem água potável;
1 bilhão de pessoas passando fome;
150 milhões de crianças sub nutridas com menos de 5 anos (uma para cada três no mundo);
12,9 milhões de crianças morrem a cada ano antes dos seus 5 anos de vida;
No Brasil, os 10% mais ricos detêm quase toda a renda nacional.

Causas naturais
Clima;
Seca;
Inundações;
Terramotos;
As pragas de insectos e as enfermidades das plantas.

Causas humanas
Instabilidade política;
Ineficácia e má administração dos recursos naturais;
A guerra;
Os conflitos civis;
O difícil acesso aos meios de produção pelos trabalhadores rurais, pelos sem-terras ou pela população em geral;
As invasões;
Deficiente planificação agrícola;
A injusta e antidemocrática estrutura fundiária, marcada pela concentração da propriedade das terras nas mãos de poucos;
O contraste na concentração da renda e da terra num mundo subdesenvolvido;
A destruição deliberada das colheitas;
A influência das transnacionais de alimentos na produção agrícola e nos hábitos alimentares das populações de Terceiro Mundo;
A utilização da "diplomacia dos alimentos" como arma nas relações entre os países;
A relação entre a dívida externa do Terceiro Mundo e a deterioração cada vez mais elevada do seu nível alimentar;
A relação entre cultura e alimentação.

: : :  fome no mundo  : : :

Causas da fome crónica e desnutrição
Pobreza;
Distribuição ineficiente dos alimentos;
Reforma agrária precária;
Crescimento desproporcional da população em relação à capacidade de sustentação.

Fome infantil
Cerca de 5 a 20 milhões de pessoas falecem por ano por causa da fome e muitas delas são crianças.

: : :  inanição infantil na Nigéria  : : :
Inanição infantil na Nigéria

 

Consequências da fome
As consequências imediatas da fome são a perda de peso nos adultos e o aparecimento de problemas no desenvolvimento das crianças. A desnutrição, principalmente devido a falta de alimentos energéticos e proteínas, aumentam nas populações afectadas e faz crescer a taxa de mortalidade, em parte, pela fome e, também, pela perda da capacidade de combater as infecções.

Classe dominante
Alterar essa situação significa alterar a vida da sociedade, o que pode não ser desejável, pois iria contrariar os interesses e os privilégios em que se assentam os grupos dominantes. É mais cómodo e mais seguro responsabilizar o crescimento populacional, a preguiça do pobre ou ainda as adversidades do meio natural como causas da miséria e da fome no Terceiro Mundo.

O Brasil e a fome
O Brasil é o quinto país do mundo em extensão territorial, ocupando metade da área do continente sul-americano. Há cerca de 20 anos, aumentaram o fornecimento de energia eléctrica e o número de estradas pavimentadas, além de um enorme crescimento industrial. Nada disso, entretanto, serviu para combater a pobreza, a má nutrição e as doenças endémicas.
Em 1987, no Brasil, quase 40% da população (50 milhões de pessoas) vivia em extrema pobreza. Nos dias de hoje, um terço da população é mal nutrido, 9% das crianças morrem antes de completar um ano de vida e 37% do total são trabalhadores rurais sem terras.
Há ainda o problema crescente da concentração da produção agrícola, onde grande parte fica nas mãos de poucas pessoas, vendo seu património aumentar sensivelmente e ganhando grande poder político.
A produção para o mercado externo, visando à entrada de divisas e ao pagamento da dívida externa, vem crescendo, enquanto a diversidade da produção de alimentos dirigida ao mercado interno tem diminuído, ficando numa posição secundária. Ao lado disso, milhões de pessoas vivem em favelas, na periferia das grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, entre outras. O caso das migrações internas é um problema gerado dentro da própria nação. Grande parte dos favelados deixou terras de sua propriedade ou locais onde plantavam sua produção agrícola. Nos grandes centros, essas pessoas vão exercer funções mal pagas, muitas vezes em trabalho não regular. Quase toda a família trabalha, inclusive as crianças, frequentemente durante o dia inteiro, e alimenta-se mal, raramente ingerindo o suficiente para repor as energias gastas.
Nesse círculo vicioso, cada vez mais famílias se aglomeram nas cidades passando fome por não conseguir meios para suprir sua subsistência.
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: : :  volta  : : :

 

Texto apropriado de um site
publicado por Mário Feijoca às 13:22 | comentar | ver comentários (3) | favorito
25
Nov 05

Males D'amores...

Prescrição para males de amor

"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer"

Ah Camões
Se vivesses hoje em dia
Tomavas uns anti-piréticos
Uns quantos analgésicos
E Xanax ou Prozac para a depressão
Compravas um computador
Consultavas a página do Murcon
E descobririas
Que essas dores que sentias
Esses calores que te abrasavam
Essas mudanças de humor repentinas
Esses desatinos sem nexo
Não eram feridas de amor
Mas somente falta de sexo

 
Autor: Encandescente - Eroticidades Poema da capa
Para encomendar Clicar aqui  ou img - Preço: 7,90 euros

publicado por Mário Feijoca às 00:44 | comentar | favorito
12
Nov 05
12
Nov 05

Respeito a liberdade...

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<P align=center><FONT color=#ffff00 size=36 pt.>Volto já! </FONT><BR><FONT color=#ff0000 size=5>Não é preciso bater</FONT><BR><FONT size=6><FONT color=#0000ff>A porta fica aberta</FONT><BR></FONT><FONT color=#008080 size=7>É só entrar</FONT></P><P align=center><A href="http://ababushka.blogs.sapo.pt/" target=_blank><IMG height=596 src="http://img.photobucket.com/albums/v416/ARQUINORMA/portal.jpg" width=388 border=0></A></P><P align=center><IMG height=267 src="http://img.photobucket.com/albums/v634/Andymore/garfieldgordo.jpg" width=508 border=0></P><P><FONT color=#33cc33><B><FONT face=verdana>Isto é só uma dica:</FONT></B> </FONT></P><P><A href="http://otestedostestes.blogs.sapo.pt/" target=_blank><IMG height=97 alt="Mudar o template" src="http://otestedostestes.blogs.sapo.pt/arquivo/Selomudartemplate.gif" width=103 border=0></A></P><P><A onclick="OpenComments(this.href); return false" href="http://blogs.sapo.pt/comentar?entry_id=844456"> <IMG height=82 alt=Comentar src="http://otestedostestes.blogs.sapo.pt/arquivo/Sapo006.gif" width=58 border=0></A>O sapo está mais informativo do que nunca, não que se tenha esforçado para ajudar os muitos utilizadores de blogues, que encontram sempre demasiados obstáculos, para entender a sua forma de gerir os blogues facilmente, e de uma maneira prática. Neste blogue encontrarão muitas ajudas no modo de organizar as templates de todos os seus arquivos de gestão inclusos. Dêem uma olhadela e ficarão surpreendidos tal como eu fiquei com todo o seu conteúdo.</P>
publicado por Mário Feijoca às 19:44 | comentar | ver comentários (2) | favorito
08
Nov 05
08
Nov 05

Carta ao Presidente Bush

por Adolfo Pérez Esquivel [*]

Adolfo Pérez Esquivel. Sr. Presidente dos Estados Unidos da América do Norte,
George W. Bush

Não posso desejar-lhe um Feliz Natal, mas não porque não queira — é o senhor quem torna isso impossível.

Hoje é um dia muito especial para os cristãos: celebramos o Natal, o anúncio da Boa Nova. É momento de olharmos para dentro, na vida pessoal, e de meditar sobre os caminhos da Humanidade. Quando, na oração, invocamos o Deus da Vida, não podemos deixar de lado os acontecimentos, a dor e a tragédia em muitas partes do mundo, tanto por fenómenos naturais, como aqueles provocados pelo homem. Assim como não podemos deixar de compreender quão longe estamos de alcançar a Paz, e a necessidade de redobrar os esforços para atingi-la.

O mundo se tornou muito mais inseguro e turbulento As desigualdades se aprofundaram, a fome e a pobreza aumentaram com a concentração do poder em poucas mãos, e os conflitos se multiplicaram em diferentes regiões do mundo.

Creio, Sr. Presidente, que necessita olhar sua obra, avaliar o que fez, a política de devastação e morte gerada até o momento em várias regiões do mundo.

Senti um sabor amargo, e muita angústia, ao ver como os grandes meios de comunicação difundiram pelo mundo as imagens e mensagens dos soldados norte-americanos celebrando o Natal, esse renovado acontecimento da Vida e da Paz.

Esses são os mesmos soldados que semeiam a morte e a destruição sobre os povos do Iraque e do Afeganistão; os que torturam e violam os prisioneiros.

São os responsáveis pelo massacre de mais de 100 mil pessoas no Iraque, mulheres, crianças, jovens e anciãos; são os que destruíram e arrasaram Faluja, e pela morte de não sabemos quantos no massacre do Afeganistão; são dados ocultados pelos grandes meios de comunicação, que lamentavelmente acabam sendo os grandes meios da incomunicação.

E, como se fossem a uma grande festa, artistas e funcionários dos governos, tanto dos Estados Unidos como da Grã Bretanha, viajam para compartilhar o Natal com as tropas e dar-lhes ânimo para continuar sua demolidora tarefa de destruição e morte.

Cabe-nos perguntar: O que foram celebrar? O profundo sentido do Natal estava ausente; esvaziaram seu conteúdo, e só ficou o barulho híbrido da sociedade consumista. Ou talvez tenham festejado quantas bombas e mortos somam a suas consciências.

A imaginação do surrealismo mágico acaba por ser um pálido reflexo da crueldade que o senhor desencadeou no Iraque e no Afeganistão.

Sr. Presidente, segundo consta em suas ordens — distribuídas às tropas através de documento emitido no Iraque em 19 de Maio de 2004 e divulgado pelo FBI — o senhor autoriza o uso de certas técnicas de interrogatório, como a privação do sono, as ameaças com cães treinados pelos militares e o uso de capuzes. Evidência de sua crueldade e do desprezo que sente pelo ser humano, e de que não vacila em utilizar qualquer meio para alcançar seus fins, violando sistematicamente os direitos humanos.

Parece que seus métodos peculiares não terão fim nos próximos quatro anos. Segundo o Washington Post, seu governo pensa em construir prisões para manter indefinidamente os acusados de terrorismo, sem nenhum julgamento, violando a própria Constituição dos Estados, além de todos os direitos das pessoas. O Departamento de Defesa mantém 500 prisioneiros na Baía de Guantánamo, em Cuba, e pensa pedir ao Congresso 25 milhões de dólares, para construir uma prisão destinada a presos com poucas possibilidades de comparecer perante um tribunal militar, por falta de provas.

O ataque terrorista às torres gémeas não justifica, sob pretexto algum, as atrocidades cometidas pelo senhor, um mal não se resolve com outro mal maior, como lhe expliquei em minha carta anterior, de 6 de janeiro de 2003.

Gostaria de lhe perguntar, Senhor Presidente: Como celebrou o Natal, o nascimento do Deus da Vida?

Eu me pergunto a que Deus o senhor dedicará suas preces. Duvido que seja ao Deus da Vida, da Paz e da Esperança. Creio que Deus, ao escutar suas preces, tapa os ouvidos para não escutar tantas mentiras e crueldades.

No dia 20 de Janeiro, o senhor assumirá seu segundo mandato como presidente desse grande país, os Estados Unidos da América do Norte, já que os cidadãos e cidadãs que votaram o reelegeram por mais quatro anos. Lamento por esse povo e pelo mundo. Muitas coisas influíram para conseguir esse resultado, como a incapacidade de seu oponente, que não conseguiu apresentar outra alternativa válida para o povo.

Um refrão popular diz que “mais vale um mal conhecido, que um bom por conhecer”. O povo dos EUA está agoniado pelos medos, pela insegurança, pelo puritanismo de alguns setores que dizem defender a vida. O individualismo impede-o de compreender o sentido profundo da solidariedade.

Mas o mais trágico que se pode ver no povo dos Estados Unidos, exceptuando alguns sectores com consciência crítica e própria, é que os que votaram no senhor, Sr. Presidente, são aqueles que por medo já renunciaram à liberdade e a seus direitos como cidadãos. São aqueles que estão submetidos à suspensão das consciências, a mecanismos de ação psicológica que condicionam os comportamentos colectivos. Métodos que foram utilizados por regimes totalitários como o nazismo, o fascismo, as ditaduras militares impostas na América Latina, que geraram instrumentos para manipular e submeter os povos através do medo e do terror.

O poder é a pior das drogas, obscurece o olhar e o pensamento e, muito pior, endurece o coração e os sentimentos. O pensamento sem sentimento é a grande tragédia da humanidade.

Os mais poderosos impérios caíram, e os Estados Unidos não são excepção. Deve saber que o monopólio da força não garante a segurança.


Nenhum terrorismo, seja de quem for, justifica o terrorismo de Estado que o senhor aplica sobre a população civil, invadindo países como o Iraque e o Afeganistão, ou o bloqueio a Cuba, que já tem mais de 45 anos, e a intervenção militar no Haiti, violando todos os tratados internacionais e a soberania dos povos, ignorando as Nações Unidas, transformadas numa carapaça sem conteúdo.

Até quando, Sr. Presidente, seguirá sua loucura de destruição e morte? Quantos crimes mais o senhor pretende carregar sobre sua consciência? Não deve esquecer que quem semeia, colhe.

Segundo relatórios, até o momento, mais de mil soldados norte-americanos morreram na frente de batalha no Iraque. Ignoramos quantos mais no Afeganistão.

O que diz aos seus familiares? O senhor vai entregar-lhes uma medalha, uma pensão e uma bandeira bem dobrada, para lembrar-los que aquele ser querido já não existe?

Continuará a mentir e a falar de liberdade aos que morreram em defesa da democracia e da Pátria, a fim de justificar seus crimes?

Ocultará deles a verdadeira razão de sua decisão de provocar as guerras, já que estas convinham a seus interesses de se apoderar do petróleo do Iraque e do controle do Oriente Médio?

Senhor Presidente, há dias lembrei-me de um veterano de guerra do Vietnam que sofreu uma profunda conversão frente às atrocidades cometidas pelas tropas norte-americanas naquele país e que arriscou sua vida para salvar vidas, perdendo suas duas pernas. Refiro-me a Brian Wilson.

Em plena guerra, ele acreditava estar lutando pela liberdade e pela democracia, essa forma de “ser americano”, até que descobriu a verdade e compreendeu as atrocidades cometidas pelas forças norte-americanas, quando viu uma aldeia vietnamita a que o enviaram com uma patrulha para inspeccionar os efeitos das “bombas em cacho” (as mesmas que estão a utilizar agora no Afeganistão e no Iraque): mulheres, crianças, animais, vegetação, tudo partido em dois; nada nem ninguém ficou a salvo.

Muitas vezes recordo Brian. Encontrámo-nos durante a agressão da CIA à Nicarágua. Acompanhei-o em um jejum nas escadarias do Capitólio, pelo fim da agressão dos Estados Unidos à Nicarágua e a El Salvador, junto com outros veteranos da guerra do Vietnam.

Foi uma acção activa de não-violência, em defesa da vida e do direito dos povos à autodeterminação. À noite dormíamos na Igreja Luterana, e ali Brian e os outros companheiros veteranos de guerra contavam suas experiências no Vietnam. Os horrores que ainda podem ver e sentir, que os marcaram para toda a vida. São as testemunhas da tragédia humana.

Senhor Presidente, escute o clamor dos povos que dizem: BASTA À GUERRA!!

Recorde as palavras de Abraham Lincoln, há mais de cem anos: “Se os Estados Unidos não tiverem capacidade para gerar relações com outros povos, serão vítima de sua própria autodestruição”. Leia o discurso de Kennedy, que usa as palavras de Lincoln, nas Nações Unidas, em 1960. É bom que se lembre delas.

Em 20 de janeiro o senhor assumirá por mais quatro anos o governo dos Estados Unidos, situação que pode desembocar em factos imprevisíveis, se continua no rumo traçado até o momento. Não esqueça que os povos podem mudar o curso da história.

Só me resta dizer-lhe que outras culturas, outras religiões, outros povos têm os mesmos direitos à vida e à dignidade. Para o Deus da Vida, são nossos irmãos e irmãs e, portanto, lhe exigimos: BASTA DE MASSACRES, Senhor Presidente. O mundo não pode estar à mercê da sua vontade.

A Justiça, mesmo tarde, chegará, e o senhor não será uma excepção, já que é responsável por crimes de lesa-humanidade.

Saúdo-o com Paz e Bem, esperando que toque sua mente e seu coração.

25 de dezembro de 2004

                          Adolfo Pérez Esquivel

[*] Prêmio Nobel da Paz. </font>

publicado por Mário Feijoca às 05:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito
07
Nov 05
07
Nov 05

Terrivel Bébé

Gosto das tuas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bonbon, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e é mel, e é tudo está certo, e o Bébé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao principio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e (...) e eu gostava que a Bébé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma crença, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escrito por um ente humano, mas é escripto por mim.

Fernando

Carta escrita por Fernando Pessoa a Ophelia em 9/10/1929

publicado por Mário Feijoca às 02:15 | comentar | favorito
01
Nov 05
01
Nov 05

Elogio ao Amor

"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam"praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há; estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banalidades, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A"vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
 
 ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso
publicado por Mário Feijoca às 03:27 | comentar | ver comentários (4) | favorito