02. Risos contagiantes...

Pensei, por momentos, naquilo que tinha acabado de dizer, e achei que tinha evidenciado demais a minha inquietação interior pela presença desta linda mulher mas já que o disse, estava dito, e nada voltaria atrás para emendar seja o que fosse. Teria de assumir daí em diante que o meu propósito seria nada mais do que a simples admiração, como se se tratasse de uma ampla sala duma galeria de arte, onde estivesse apenas a admirar  uma  obra, da qual desconheceria o seu autor. Talvez a divindade... Fiquei radiante com este pensamento. Puxei novamente da cigarreira para  acender um cigarro, acendi-o, e inalando o fumo suavemente, e ao mesmo tempo sentindo uma leveza de espírito, que há muito assim não sentia;  nada  justificaria a alteração súbita desta satisfação interior que  tomava conta de mim por completo.

- Aí, o senhor, nem calcula, o bem que sabe receber um elogio dessa natureza a estas horas da manhã. Vou ficar bem disposta o resto do dia. Mas como sabe, o senhor também é muito galanteador. Sabe disso não sabe?

Fiquei por momentos sem reacção para responder de imediato, dado que sentia a saliva a desaparecer totalmente, que quase parecia que as glândulas deixaram de a produzir, e ao mesmo tempo uns calores na face, que tinha a sensação de ter ficado corado até às orelhas. Não que eu fosse muito de corar, mas os calores, esses estavam presentes. Aquela maneira tão simples de agradecer o elogio, mas de uma maneira entre o sensual e o provocatório, proferido por um tom de voz condizente com toda a sua estrutura esbelta e confiante.
A espontaneidade estava me fugindo para responder adequadamente, o que me deixou um pouco  embaraçado - são os desvios cerebrais que deixam de funcionar convenientemente quando se está presente, em situações entre o imaginário e o racional que nos ofusca as ideias do diálogo natural, onde se sobrepõe a apetência  sexual, perante ocasiões muito especiais, como era o caso, pelo menos para mim... Não consigo imaginar o que irá na cabeça das mulheres, ou se pensam da mesmo forma que os homens. Acho que não, acho que não! De outro modo, não haveria esta apetência voraz que nós temos pelas mulheres, precisamente por haver muitas diferenças, tanto de estar como de pensar.

- Não foi bem, esse, o meu propósito, embora não desdenhe a possibilidade de o ter sido sem querer, no entanto, não o disse para ser agradável ou galanteador, mas porque fui sincero, e a espontaneidade deixou-me fugir o que sentia na alma.
Quando olhei para o relógio, verifiquei que estava na hora de, com pena minha, finalizar aquele simples e curto diálogo; logo, chamei o empregado para pagar a despesa. Quando me apercebo que a senhora vasculhava a sua maleta, que  tinha colada em cima dos joelhos,  nisto, deixou-a tombar em direcção ao solo, espalhando todo o seu recheio. Eu, num impulso, pronto a apanhar as coisas da senhora, inclinei-me em direcção aos objectos e ao fazê-lo, fizemo-lo simultaneamente. E como estávamos sentados a uma distância não mais de trinta centímetros um do outro, os impulsos foram exactos ao milésimo de segundo, o que ocasionou esbarrarmos as cabeças uma contra a outra.
O facto originou um riso de gargalhadas despregadas...

publicado por Mário Feijoca às 17:52 | comentar | favorito