03.O sol brilhou entre nuvens negras

O amor inesperado tem sempre um sabor especial...

Ambos, com as mãos agarrados às nossas cabeças, continuávamos a rir em tom de queixume misturados com dor e prazer da boa disposição que se sobrepunha à própria dor, forçado pela pieguice  manifestada - mas para mim, estava mais próximo de uma dor maternal de prazer quando dá há luz, pois tinha havido o nosso primeiro contacto corporal  activando todos os sentidos ainda adormecidos  aquela hora da manhã - exortando cada vez mais, maior satisfação por me ter levantado tão cedo neste dia. Ao que ela proferiu:

- Esta doeu mesmo, será um bom indício, ou um presságio de alerta ao afastamento de duas pessoas que se desconhecem?

- Não lhe saberei responder a isso minha cara amiga, apenas lhe serei capaz de dizer com convicção, que ainda bem que me levantei muito mais cedo, hoje, que o habitual! Será isso um bom presságio? Talvez sim, ou talvez não, o destino o dirá a seu tempo. Mas parece-me, que não poderá haver afastamento entre duas pessoas desconhecidas que ainda não se aproximaram. Porque apenas nos olhamos!

- Não diga isso, então não chocámos as nossas cabeças agora mesmo ainda, os dois!? A aproximação já houve, agora apenas nos resta o afastamento... Não acha meu caro amigo?

E vão duas... Rimo-nos ainda mais das observações  um do outro, mas seria apenas fruto da minha imaginação, ou estava ali, naquele exacto momento a acontecer uma espécie do ressurgimento romanesco encapotado pelo puritanismo, seja como for, estava a gostar daquilo que estava acontecendo, e não me disponha a deixar fugir a oportunidade se ela existir, e também, se ela o consentir, não hesitarei em toma-la nos meus braços. Já que tudo está a ganhar forma, ao menos vou arriscar e jogar com o mesmo baralho que ela está a jogar sem cartas viciadas, julgo. Isto, se não for apenas a imaginação fértil que todos nós homens temos em situações idênticas, onde pensam que vêem sempre muito mais para além dos acontecimentos circunstanciais. Nós os homens, somos muito bons realizadores de cinema onde tendem a roçar sempre a ficção para além do imaginário, roçando por vezes o ridículo. Oh se somos! Por algum motivo existem muito mais homens no meio cinematográfico a produzir e a realizá-los. Mas a intuição orienta-me neste momento e diz-me que não, que não estou a fazer filme, mas que algo está a acontecer entre duas pessoas, só ainda não sabemos o quê propriamente dito... E também, a estas horas da manhã, não admiraria que apenas quiséssemos começar bem o dia e nada mais.

- Apresento-me, chamo-me Maria Antónia, Maritó para os meus amigos.

- Coincidências... M.A.  versos  A.M., António Manuel o meu nome, e completamente encantado! É um prazer de poder ter a honra de conhecer uma pessoa tão simpática e afável como a senhora, a estas horas da manhã. E os meus amigos me tratam por António, Maritó, seja de dia ou noite, a qualquer hora.

Eis que não quando, surgem ainda imobilizados e completamente espalhados os objectos no meio do chão, à espera que os apanhássemos, e que por breves momentos, nos abstraiamos de os apanhar justamente por causa das apresentações, e entre os diversos objectos que ia apanhando, lá estavam eles, os dois bem juntinhos como a  rirem-se para mim - como que a divertirem-se pelo flagrante - diria mesmo que estavam colados aqueles dois invólucros embrulhando os dito cujos preservativos.  Olhei para a Maritó, e sorri, ela meio acanhada sorri também fazendo o gesto, meio tímido, de encolher os ombros, e diz:

- É um mal menor, mas necessário para as eventualidades de... de acontecer um acto amoroso que leve ao sexo em momentos inesperados!

Não existe sossego, sem a ventania que teima inquietar os nossos pensamentos. Foram as palavras que se uniram, no labirinto das nossas ideias!
Inconfundivelmente está impregnado o sentimento que nos move e une mesmo sem percebermos as intenções quer de um, ou de outro. O que por si só, justificaria o ir mais além, mesmo que para isso pusesse em risco uma eventual aventura  Não será assim que nascera sempre a paixão e o amor (?). Ou serei antes eu, que já me desabituei da paixão que enlaça o amor desconhecido e anónimo.

- Infelizmente assim terá de ser, pois nos dias que correm não se pode arriscar leviandades descontroladas, que nos possam vir a fazer mazelas de que, um dia mais tarde, nos venhamos a arrepender do simples acto em si, que deixaria de ter o encanto do amor...

Passei-lhe a maleta, e encaminhámo-nos os dois em direcção à porta, e a  sensação que me deu, era a de duas pessoas que já tinham uma relação íntima, que caminhavam naturalmente...  Senti uma agradável sensação com esta visualização imaginária.
Já no passeio, parámos junto à estátua do F. Pessoa, e cruzámos os olhares por breves momentos, ela desviou  o olhar e no momento em que eu tentava proferir algo, ela diz:

- Bem meu amigo, chegou a hora de cada um seguir o seu caminho, ao que nos resta despedirmo-nos.

- Assim parece, pois também já não chegarei a tempo e horas ao meu destino, mas foi por um bom motivo e isso deixa-me tranquilizado. Restando-nos então as despedidas.

Peguei-lhe na mão, e beijei-a respeitosamente, ela sorriu  e apercebi-me de sentir um calafrio pela espinha abaixo ao faze-lo. Afastámo-nos a passos lentos. Nisto, de uma maneira incontrolável pelo impulso dos meus sentidos mais apurados, voltei-me de repente e chamei-a:

- Maritó.
- Sim, diga António!?
- Como nos poderemos voltar a encontrar?
- Isso agora... Terá de me procurar, se realmente eu valer esse esforço, me encontrará certamente.

A esperança assolou-me encorajamento e no momento em que ela se aproximou, agarrei-a no braço puxando-a para mim e beijei-a apaixonadamente, sentindo as pernas a tremer como varas verdes, e ao mesmo tempo estupefacto pela minha coragem, que poria em risco a nossa possível ligação. - Lembrando-me ao mesmo tempo, do velho ditado que quem não arrisca... Eu arrisquei!

- Não posso Maritó, não posso deixá-la escapar sem que saiba quando nos voltaremos a encontrar novamente, porque me condenaria a procura-la pelo mundo fora, se fosse preciso, até ao fim do resto da minha vida.

Ambos já sabíamos, de antemão, o chão que estávamos pisando. Beijar é muito mais que o mero tocar dos lábios. É arte e doação.

publicado por Mário Feijoca às 04:16 | comentar | favorito