06. Decepção reveladora da intranquilidade

Eis que a entrada se dá de rompão, mas a minha decepção foi totalmente reveladora na minha expressão, pois a Maria Antónia, entrava acompanhada de um sujeito bem parecido, aí pelos cinquenta anos, o que deitou por terra todas as ideias que me tinham acompanhado durante o dia inteiro. Bahhhhh! Naquele momento, senti uma revolta de tal maneira que só desejaria não me ter levanta muito mais cedo que o habitual, evitaria assim este enorme desconforto.
 
 - Que se passa António? não se sente bem? Você está completamente pálido, que até parece ter visto um fantasma!
 Aquela pergunta feita daquela maneira, deixou-me completamente desarmado para lhe responder, fosse o que quer que fosse, mas recompus-me do choque e disfarçadamente, se é que  consegui o intento. Ao ouvir a sua bela voz, naquele instante, senti um desejo aterrador de  abraçá-la e beijá-la até ao esquecimento daquela imagem desconfortante. Ela ainda de pé agarrei-lhe na mão delicadamente e proferi o seguinte:
 
 - Não, eu estou bem sim, apenas tive uma visão possivelmente fruto do cansaço derivado ao dia extenuante que hoje tive, que me causou uma espécie de quebra de tensão, nem sequer tenho a certeza o que quer que tenha sido (não sentindo minimamente que tivesse sido muito convincente)...  - Sente-se Maritó, e tome qualquer coisa!  - Mas já passou, agora estou bem.
 
 - Sim, quero um café, estou mesmo precisando de beber um. Não me diga António que ficou assim por me ter visto entrar? ( Sorriu imitando uma expressão de criança...)  Ou está a tentar ocultar-me alguma coisa, ainda agora nos conhecemos?
 
 - Não, não foi nada disso, quer mesmo que lhe diga? Não vai troçar de mim? Achando-me um perfeito ridículo idiota? Vê aquele sujeito sentado ali naquela mesa ao canto com o jornal na mão?
 
 - Sim vejo, e que tem ele?
 
 - Bem, agora não tem nada, mas, sabe que ele passou por aquela porta ao mesmo tempo que você, vinham mesmo lado a lado, e pensei por momentos que a acompanhava... Isso deixou a minha imaginação  vaguear e fez-me ver coisas que me indispôs momentaneamente.
 
 Riu-se com a minha explicação, e proferiu:
 
 - São mesmo visões próprias do próprio homem, vocês são todos adoráveis e nós, as mulheres, por muito mal que digamos, necessitamos sempre deles. Mas não leve a mal aquilo que lhe vou dizer. Os homens pecam pela intranquilidade e pelo sentido de posse que quase sempre têm sobre as mulheres e isso é a causa de muitos mal entendidos que por vezes levam a situações extremas e como resultado inevitável levam sempre a um afastamento, quer seja físico, ou até mesmo espiritualmente. Os homens se se acreditassem, ou ao menos, se predispusessem a aprender connosco, só teriam a ganhar e evitariam muitas situações de conflito completamente  caricatas e descabidas, que, levam-nos muitas vezes ao desespero da nossa condição feminina a fugir-lhes, mas não suportando por muito tempo a vossa ausência, apesar de tudo, porque vocês são o musculo que nos faz falta.  Poderemos ser brancas pretas ruivas ou loiras e pelo facto de sermos femininas e sobretudo mulheres, isso não quererá forçosamente dizer, que tenhamos de ser burras, porque ser-se feminina não é sinónimo de estupidez ou de faltar inteligência, apenas não somos providas desses músculos, de resto, não nos falta mais nada.
 Os homens, tentam  ao longo dos séculos reduzir-nos a essa condição frágil e indefesa. E a mulher, em termos psíquicos o que por sua vez fez, neste período de tempo que atravessamos a história da humanidade, foi desenvolver no seu interior capacidades que estão longe de ser absorvidas e entendidas pelo próprio homem, criando-nos uma resistência a suportar o sofrimento mesmo indelével, que nunca nos abandona precisamente  e até, quando nos sentimos felizes.  Só desta forma os conseguimos continuamente a adorar-vos e a desejar-vos para lá da nossa própria renuncia.
 
 - Estou simplesmente sem palavras... A força com que você Maritó, proferiu todo o seu raciocínio é de uma eloquência avassaladora, deixou-me reduzido a uma condição humana simples e de puro ser, fornicado e obcecado pelo mal, contrariando  assim, toda a beleza da natureza. Estou deveras quase envergonhado!  Porque a condição humana muitas vezes é só olhada pelo prisma masculino esquecendo por vezes, ou quase sistematicamente  que a essência da vida está exactamente na mulher, é ela, que é o centro do universo. precisamente por isso, ela é a mãe, tal e qual como a natureza... O som das suas profundas palavras entraram-me nos ouvidos como musica cintilante de Sebastian Bach ou Ravel.
 
 - António, você agora demonstrou-me ser um homem  de coragem, e com muito carácter, que me obriga a acreditar e em confiar em si! Apenas espero, muito sinceramente, que tudo aquilo que demonstra ser, não se apague ao mínimo vestígio que lhe desagrade. Porque você António, aquilo que me tem mostrado ao longo do dia, é quase ofensivo para a realidade da maioria dos homens. Não receia isso?
 
 Não restavam dúvidas, que estava perante uma mulher de uma segurança e inteligência que se aproximava inquietantemente da estupidez humana, quase ofensivamente.
 Cada vez lhe saboreava mais a sua beleza, que recusava-me insistentemente de desviar o olhar daquela imagem celestial, e por momentos até duvidei de que tudo aquilo estivesse mesmo a acontecer, e não passasse de um mero sonho que ainda não me tivesse despertado.
publicado por Mário Feijoca às 01:48 | comentar | favorito