22. Na praia ao luar...

Sentámo-nos bem juntinhos na areia e ficámos aí durante algum tempo em silêncio absorvidos nos nossos intransponíveis pensamentos. Cada um abraçado às suas pernas como que para as segurar do cansaço.
 Olhávamos para o céu a observar a lua na sua perfeita e brilhante beleza enigmática, com a sua sabedoria sobre o próprio amor. Quantas vezes a lua não testemunhou o amor eterno,  e outros tantos momentos fugazes da paixão diluir-se no tempo sem deixar qualquer rasto de amor. Existem situações nas quais a continuidade é impossível existir porque não se lhe ajustam. Foi neste preciso pensamento que me deparei com a velocidade da nossa relação, perguntando a mim próprio, que irá ser de nós a partir daqui, se pouco ou nada sei a respeito desta mulher. Apenas sei, que tomou conta de mim neste meu estado mais puro de emoção, emblemático sentimento que é o amor. Sorri com este meu pensamento e olhei para ela, fazendo-lhe uma carícia nos seus cabelos seguida de um beijo na sua face. Ela encosta a sua cabeça ao meu braço e começa a chorar baixinho...
 
 - Então minha querida, de que propósito vem esse choro agora, precisamente nesta altura tão tranquila em que ficámos absorvidos na nossa própria paz interior?
 
 - Oh, António, meu querido, não fui capaz de conter as lágrimas por esta felicidade que senti e me descontrolou a emoção, pela carícia que me acabou de dar. Você nem imagina o que ela significou para mim, neste exacto momento...
 
 Puxei dum lenço para lhe limpar as lágrimas, mas antes, encostei os meus lábios aos seus olhos e bebias para deixarem de lhe escorrer pela face.
 Levantamo-nos, pois os nossos corpos já estavam a arrefecer do frio que se fazia sentir, apesar da época, a noite, até nem se poderia dizer que estivesse muito fria. Mas não teria bem a certeza disto, porque o sangue que circulava nas minhas veias, aquecia-me o corpo talvez originado por todo o calor que tinha sentido... Fomos caminhando a passos lentos, de  passeio, com o braço envolto nos seus ombros como um casal tranquilamente absorvido pelo sentimento amoroso. Ela parou junto do passeio para se calçar, e de seguida direccionámos ao sitio onde se encontrava o seu carro para irmos novamente para sua casa. No carro, durante o percurso até chegarmos, mantivemo-nos em silêncio, como com receio de incomodar os pensamentos um do outro. Chegámos entretanto ao nosso destino com a sensação de estarmos a ser observados... Revelava-se completo o desejo. e esse desejo, que fosse, talvez, nascido de olhar despovoado mas voado o espírito prisioneiro que sempre fosse querido, desorganizado neste corpo dirigente vou desmantelando o sonho, como se de átomo se tratasse, e não o corpo que fosse na sua simples silhueta, vejo o mundo a que ainda pertenço. A lua olhava para nós; como dizendo, então e agora? A Maritó responde como se tomasse o lugar dela.
 
 - António, ainda tem o jornal desta manhã? Se o tiver dê-mo que eu quero guarda-lo para sempre...
 
 - Tenho sim, minha adorada amiga... Amiga, que acabou de me roubar a alma, neste corpo sem dor, preenchido apenas com o seu amor!
 
 - Isso é para tentar-me seduzir António? Já não vai a tempo, porque você já me seduziu há muitas horas atrás!
 
 Proferiu estas palavras sempre de frente para mim a olhar-me fixamente nos olhos.
 Eu encosto os meus lábios na sua testa, e deixo fugir um beijo de ternura simbolizando respeito e devoção. Beijo os seus carnudos e quentes lábios, apertando-a junto ao meu corpo.
 
 - Mas Maritó, nunca me cansarei de a seduzir, porque você é o elixir que me dá vida para viver eternamente dentro do meu corpo..
 
 - Obrigada António, você é tão terno que me assusto só de pensar que algum dia o poderia vir a magoar! - Riu-se timidamente esquivando o olhar, e conclui  - Vá, agora vamos justificar o pretexto que nos trouxe até aqui. Ou já se esqueceu?
 
 - Os livros, os livros que você me pediu para ajuda-la a transportá-los, e que ainda estão aqui dentro desta mala... - Apontado para o carro.
 
 - Isso mesmo!.. Vamos colocá-los no meu quarto e depois, fecho a porta à chave para não o deixar sair...
 
 E rimo-nos! Rimo-nos, como duas inocentes crianças.

 

 Leonard Cohen Ouvir 

publicado por Mário Feijoca às 17:44 | comentar | favorito