24. A curiosidade do colega...

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Cheguei ao atelier, por volta das 09;40h, já todos se encontravam presentes, daí ter sido o último a chegar. Cumprimentei o pessoal da mesma forma habitual.  O Raul, um colega meu dirige-se-me com modos espalhafatosos como lhe era já característico e pergunta-me.
 
- António mas que te aconteceu homem ?
 
- Então porquê Raul? O que é que eu tenho de diferente para fazeres essa pergunta homem? - Rindo-me por o ter imitado nesta parte.
 
- Ora, a tua cara, a tua cara está diferente só isso, que se passa?
 
Passando com uma das mãos na face como que a procurar algo  de estranho, fazendo uma expressão de apreensão...
 
- Bom, estás com uma expressão que conhecendo-te ao tempo que te conheço nunca lhe a tinha visto. Saiu-te por ventura a lotaria, ou não queres dizer?
 
Esbocei um sorriso e de uma maneira impensada respondo.
 
- Melhor! Meu amigo, muito melhor...
 
- Melhor? com essa agora é que me estás a intrigar, então conta lá,. vá...
 
- Raul contenta-te com a minha cara, porque quanto ao resto apenas direi que já te respondi. Simplesmente me sinto satisfeito nada mais. Ou também não posso?
 
- Ó pá, se isso é uma expressão de satisfação, eu devo ser com certeza o pai natal. Os teus olhos brilham de uma maneira que quase me encandeiam só de olhar para ti,  e tu dizes satisfeito... Satisfeito?
 
-Vá, vamos mas é trabalhar que ainda há muito que fazer hoje, antes que me  apeteça encher os pulmões de ar e gritar com todas as minhas forças e mandar tudo às urtigas... Tu és tramado não te escapa nada. Mas olha só, fica-te com a minha alegria e não perguntes mais nada. OK?
 
- OK, ok! Já me fui embora... E dá um grito ouvindo-se na rua: - O António está apaixonado!!! Ele está apaixonado, ele estás mesmo apaixonado... 
 
Começando a correr e a dançar pelo sala, como se lhe tivessem dito que estava "passado no teste". O que colocou todo a gente a rir à gargalhada. Tornando-se engraçada a sua manifestação.
Em todos os locais de trabalho existe sempre um cromo como o Raul, que por ser um individuo alegre fazendo sempre à mínima oportunidade todos rir;  mas com um coração de manteiga sem maldade absolutamente nenhum. Aquilo que se costuma dizer na gíria, um "bacana", um gajo "fixe". Era isso que ele era, uma amigo do seu amigo!
 
Mas porque raio é que eu tenho de estar aqui hoje?...
Este pensamento levou-me a divagar por sítios inimagináveis... Não há a mínima dúvida que a natureza humana é extremamente complicada. Não foi para isto que a gente nasceu, não pode ser só isto, e nem sequer estávamos predestinados a tanto sofrimento, alguma coisa no nosso processo de evolução deveria ter corrido mal, para isto acontecer, não vejo outra forma de a entender. De quem terá sido a culpa de mudar o rumo das coisas, na sua evolução, contrariando a lei natural da vida? Se a própria vida seria muito mais simples, e muito menos complicada, não havendo tantas opções que nos baralham e confundem os nossos sentidos; sendo tão básicas, as nossas necessidades para nos manter vivos! Depois destes pensamentos a atordoarem-me o cérebro, apenas encontro uma explicação. É que à medida que o homem ia sofrendo o seu desenvolvimento, e a sua inteligência inventando e descobrindo novos utensílios de forma a ajudá-lo a facilitar as suas tão primárias tarefas de sobrevivência, os dias cada vez se foram tornando maiores. Dado que até aqui a sua única ocupação, era unicamente a caça para se alimentar e aproveitar as peles para se  cobrir com elas para se proteger do frio. Depois de o fazer, ficaria o resto do dia sem mais nada com que se ocupasse, a não ser cobrir a sua fêmea e dormir. Sofrendo de algum tédio, e assim,foi arranjando tantas tarefas para se ocupar ao longo do dia, que passou a fazer parte de uma obrigação, inventando descobrindo e fabricando artesanalmente, que surgiu o trabalho como hoje o entendemos. Isto é uma maneira muito simplificada de demonstrar que o ser humano é mesmo um ser muito complicado; porque era um ser tranquilo que tinha tudo, e hoje passou a um ser intranquilamente obsessivo que não terá nada... Mas aqui, julgo que o principal motivo que transformou o homem, foi o próprio amor, transformando-o num guerreiro para defender a sua fêmea, dado que a queria só para ele, e aí o seu desenvolvimento originou o sentimento do ciúme naturalmente. Criando-se assim um homem austero, bruto e convencido de que era invencível. Estes são os predicados essenciais que tornam o homem machista transpondo-o aos dias de hoje, em que cada vez, têm menos espaço na nossa sociedade para se movimentarem, precisamente, por já não habitarmos em cavernas e assim como, a mulher foi ficando cada vez mais culta e  inteligente ganhando a sua própria  independência. Actualmente elas já não os suportam, por isso, eles estão mesmo em vias de extinção!
 
A componente de um romance entre um homem e uma mulher que se acabam de conhecer é sempre uma incógnita, nunca existindo duas situações iguais.
Quando ele acontece, estamos a ser sistematicamente observados e de certa forma a sermos comparados ao seu amante anterior; ele(a) nunca me disse isto assim; ele(a) nunca me beijou desta forma, ou nunca foi tão educado assim... Etc, etc! Estas sintéticas comparações só desaparecerão quando o amor os preenche na sua totalidade e deixará de existir o sentido comparativo, porque agora o seu amante anterior é apenas e só o actual!
 

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Quando uma mulher tem de escolher entre dois amantes, um dos quais esteve anteriormente ligado a ela, enquanto o outro é um estranho, os Acharyas (homens sábios) defendem que é preferível o primeiro porque, sendo já o seu temperamento e o seu carácter conhecidos através de uma prévia e cuidadosa observação, mais fácil se torna contentá-lo e satisfazê-lo. Todavia, penso que um antigo amante que tenha já gasto uma grande parte dos seus bens não pode ou não deseja voltar a especular grandes somas, pelo que é tão digno de confiança. Casos particulares, diferentes desta regra geral, podem no entanto surgir, em consequência das diferenças entre as índoles dos homens.

 

 

publicado por Mário Feijoca às 01:50 | comentar | favorito