Saint-Exupery

1º Centenário de "Saint-Ex"

Chamava-se Antoine Jean Batiste Marie Roger de Saint-Exupery, "Saint-Ex" para os Franceses e, simplesmente, "Tonio" para os amigos.
Foi autor de um dos livros mais traduzidos em todo o mundo (logo depois da "Bíblia" e de "O Capital"), O Principezinho, sua obra prima, que o imortalizou entre os povos de todo o mundo e do qual existem versões traduzidas em oitenta línguas e dialectos.
Nascido em 29 de Junho de 1900, mal conheceu o pai que faleceu quando Antoine tinha apenas 4 anos mas estabeleceu uma relação profunda com sua mãe de quem referia a doce compreensão, com as irmãs com quem estabeleceu uma grande cumplicidade e, ainda, com a tia e governantas que, de alguma forma aparecem retratadas nos seus livros.
Não sendo um escritor prolixo, com vasta obra publicada, Saint-Exupery deixou-nos todavia um conjunto de obras que marcaram as letras do início do século e que reflectem todo o envolvimento social e humano em que viveu, com particular ênfase para o período da Segunda Guerra Mundial que marcou indelevelmente a sua escrita.
Piloto aviador/escritor, a sua obra reflete esta condição. É nos voos que a sua imaginação floresce. Em Correio do Sul (1929), "Voo Nocturno" (1931) e "Terra dos Homens", publicado em 1939, a sua observação aérea do mundo leva-o a referir que "por baixo da camada de nuvens, está a eternidade". A sua visão do mundo e da existência era a visão da condição humana.
Embora toda a sua obra seja o reflexo de acontecimentos vividos, em "O Principezinho" assiste-se a um conjunto de situações que os estudiosos da sua obra ainda procuram definir o sentido e o significado. Para além da escrita, Saint-Ex revela-se aqui como pintor aguarelista e o conjunto de desenhos é como que uma história dentro de outra. Aqui, o aviador/narrador nunca surge nos desenhos. (Descobertas recentes nos Estados Unidos, revelam que Saint-Exupéry eliminou algumas das aguarelas em que o narrador era visível). A inspiração para todo o cenário do livro terá nascido de um acontecimento marcante da sua carreira de aviador: em 29 de Dezembro de 1935 o seu avião cai a 200 km do Cairo, em pleno deserto; durante 5 dias vagueou até ser encontrado, não por um pequeno príncipe vindo do asteróide B612, mas por uma tribo nómada.
A figura do Pequeno Príncipe já vivia na imaginação de Saint-Ex, muito antes da escrita do seu livro. Rabiscos em guardanapos de restaurantes, no topo e entrelinhas das suas cartas mostram já esta figura de menino louro, com cachecol de aviador (que ele próprio também usava).
Saint-Exupery viveu a guerra como piloto. A sua mais importante missão, o voo sobre Arras, acabou sendo relatada em Piloto de Guerra.
Em 1940 decide ir para os Estados Unidos, tendo no percurso passado por Lisboa onde fica um mês. Hoje, o seu registo no Hotel Palácio do Estoril é conservado naquela cidade, no Espaço Memória dos Exílios.
Em Carta a um Refém (1943), Saint-Ex dedica a Lisboa as sua primeiras palavras. Esta carta é um tributo ao seu amigo Léon Werth a quem, aliás, vem a dedicar também o seu Principezinho: "Para Léon Werth, ... à criança que essa pessoa grande já foi".
A sua obra Terra dos Homens, publicada nos Estados Unidos como "Wind, Sand and Stars", recebera em 1940 o prémio de melhor obra estrangeira do ano, momento em que Saint-Exupery combatia ainda nos céus de França. A sua permanência nos Estados Unidos prolonga-se e a sua experiência no voo de Arras, leva-o a publicar "Piloto de Guerra" (1942) que durante 6 meses é "best-seller" nos EUA. Perante a ocupação da França e a divisão dos Franceses, Saint-Exupery não toma partido. Continuou pela França e pelos Franceses sem alinhar em qualquer grupo o que lhe valeu a animosidade de De Gaule.
Os seus editores apercebem-se da sua melancolia e desafiam-no a escrever "um livro para crianças". Nasce O Principezinho (1943), o menos infantil de todos os livros infantis. Um livro para crianças, dedicado a Léon Werth, uma pessoa grande que já foi criança e que hoje passa fome e frio em França, refere a sua dedicatória.
O tema da amizade, das coisas simples, dos ensinamentos inesperados. O Principezinho, encontrado no deserto, o piloto perdido e a raposa que completa este triângulo, com a sua sabedoria. O Principezinho faz perguntas e desinteressa-se das respostas. "Ele pergunta e a pergunta é mais importante que a resposta. Ele caminha mas a marcha é mais importante que o objectivo. Ele deseja; o desejo é mais rico que o objecto desejado. Valores? Todos ressaltam a importância do relacionamento humano, a riqueza íntima das pessoas, o abranger do mundo sob a luz única de um olhar, e o respeito devido a essa luz, a essa riqueza, e à generosidade dos laços" (Michel Quesnel).
A rosa, deixada no asteróide, a rosa única "porque é minha", pequena, frágil e sedutora poderá ser o seu amor e a sua amada Consuelo, bela, vaidosa e encantadora, com quem casa em 1931 em Paris.
Ver com o coração porque o essencial é invisível aos olhos. Ver uma ovelha dentro de uma caixa. Ver o elefante dentro da jibóia. O narrador, o piloto perdido no deserto, escreve para não esquecer o seu amigo o Principezinho que partiu. Porque é triste esquecer um amigo e, depois, porque podemos ficar como as "pessoas grandes"... que só se interessam por números.
O livro é uma viagem pelos planetas conhecidos do Principezinho. O do Rei que só sabe proibir e ordenar; o do Vaidoso que só quer ser admirado; o do Bêbado que bebia para se esquecer que tinha vergonha de beber; o do Homem de Negócios atarefado a contar as estrelas, homem sério que não tinha tempo a perder com ninharias; o do Acendedor de Candeeiros que, ao menos este, fazia um trabalho útil; o do Geógrafo que não era explorador e que, portanto, não fazia ideia nenhuma do que eram os mares, porque não saía do gabinete, isso era coisa para os exploradores e, finalmente, a Terra com dois biliões de "pessoas grandes", entre reis, homens de negócios, geógrafos, bêbados, e vaidosos.
Quando os americanos estendem a luta ao Norte de África, Saint-Exupery regressa à sua esquadrilha. Deixa nos Estados Unidos o manuscrito de "O Principezinho".
Em 31 de Julho de 1944, o general Gavoille confia-lhe uma missão. É o seu último voo. Desaparece sem deixar vestígios.
Na noite anterior à partida escreve duas cartas.
Numa delas diz: "Se for abatido, não lamentarei" e, noutra, "sinto que tenho vocação para ser jardineiro".



por Francisco Fernandes

publicado por Mário Feijoca às 04:51 | comentar | favorito