Sexo em palavras...

O AB...Sexo de Marta Crawford
Entrevista com a psicóloga da TVI, sem papas na língua… 

Respondeu a todas as nossas questões sobre a sexualidade feminina. Sem esquecer a masculina. Até à meia hora de entrevista, isto é, ainda nos preliminares, este seria o rescaldo: Marta Crawford, a psicóloga e apresentadora do pedagógico programa da TVI AB...Sexo (a quem chamam “a perita”), fala de sexo com o rigor de um analista económico e a perícia de um investigador criminal. Ou seja, por detrás de um orgasmo múltiplo ou de uma disfunção eréctil há sempre uma estatística e um motivo pericial.

Duas horas depois, e já embalados pela fluidez do assunto, a conclusão será outra: Marta tem tanto de uma Mrs. Hite cerebral como de uma agitadora humorada Mae West. Uma mulher madura para quem o sexo (de qualidade) “é um curso intensivo para ir tirando ao longo da vida”.

(Entrevista)

Comecemos por uma questão primária: a distinção entre sexo e sexualidade?

Sexo é o acto em si, a parte prática. A sexualidade é mais ampla. Contempla a vivência, a relação, o desejo, o oculto, a parte partilhada com o outro e a vivida connosco, com o nosso corpo, a nossa intimidade, que é o princípio de um sexo gratificante.

Desde que apresenta o programa (AB...Sexo, TVI), passou a ser abordada na rua, pedem-lhe conselhos – os chamados truques e dicas – ou ainda há muitas reservas, guardam as dúvidas e angústias para as consultas?

Olham-me mais como um bicho raro. Do género, “lá vai aquela que fala de sexo como um homem”. Até à data, só tive um episódio de abordagem directa. Um senhor de alguma idade que queria saber se ainda valia a pena “voltar ao activo”.

E valia?
Vale sempre.

E nós, homens, estamos condenados ao grito “Libertei-me enfim do tirano”, como disse Luís Buñuel quando ficou impotente, já ao dobrar dos 70 anos?


O sexo é uma tirania na perspectiva de que o homem tem de estar sempre pronto e a mulher sempre disponível. O culto hedonista do perfeccionismo é castrador.

Dizem os entendidos que a maioria dos problemas sexuais está na cabeça...

Há problemas de saúde, orgânicos, que interferem com a qualidade do sexo – a obesidade, a diabetes, as doenças cardiovasculares… –, mas a cabeça é que manda. É o órgão sexual por excelência. Se uma pessoa se sente mal amada, incompreendida, deslocada da paisagem, acaba por falhar na sua vida sexual. Às vezes, basta ter vergonha do próprio corpo para não entrar numa relação sexual de braços abertos. Nisso, a mulher é mais contraída e a tendência – se não se encarar como é ou como gostava de ser – é ir-se frustrando mais e mais com a idade. Ou porque se sente gorda ou envelhecida, ou porque simplesmente não gosta do rabo e das pernas. A atitude decorrente é fechar-se em si mesma, tornar-se concha, crustácea. Afastar-se do prazer. Estancar a vontade de descoberta, que é perpétua. Cristaliza, torna-se empedernida, seca… simplesmente porque não se ouviu ou não se mostrou como realmente era ao seu parceiro.
 
Ou porque ele não soube ouvi-la, mapeá-la, descobrir-lhe o ponto G e todas as outras letras do alfabeto amoroso.

É mesmo isso. O ponto por ponto, os pontos nos is…


É inevitável que veja os comportamentos do prisma feminino ou esse olhar de que fala é unissexo?

Refiro-me sobretudo aos medos e repressões que limitam essa descoberta. É um problema mais assumido em clínica pelas mulheres, mas há cada vez mais homens a assumirem as suas incapacidades por falta de afecto. Se há alguma conclusão possível, é que, quanto mais libertas e libertos estiverem dos medos e das vergonhas, mais recompensas tirarão dos seus relacionamentos.

Qual a principal queixa de disfunção de uns e outros?

A falta de desejo. E não é uma falta de desejo orgânica. No caso das mulheres, são as chamadas “falsas frígidas”. Conseguem ter orgasmos na masturbação, mas são incapazes de os ter durante o acto sexual. Elas queixam-se que eles só querem sexo, “despejar o saco” e passam logo aos finalmente. As mulheres precisam de estar bem na relação para darem o seu melhor.

Eles são mais primatas? Sofrem de incontinência hormonal?

São menos exigentes. Escolhem uma mãe para os filhos e depois multiplicam-se em parceiras ou em fantasias.

Consta que todos os homens são impotentes, mas há sempre uma mulher que lhes resolve o problema. Ou que não há mulheres frígidas. Há é homens sem qualidades.

Grandes verdades. Durante muito tempo as mulheres esqueciam-se que tinham um clítoris, que por acaso é um órgão de prazer exclusivo da mulher, e dos mais prazerosos. Há muitos homens que se esquecem que a protuberância está lá, e pode ser estimulada antes, durante e depois da relação.

Acha que um homem que é infiel só procura sexo ou também vai à procura de uma compensação emocional (já agora, sem que nada disto o desculpe)?

Acho que há de tudo. Mas sim. O problema do desentendimento afectivo também leva os homens a procurarem colos alternativos. Muitas vezes não se separam porque ainda estão condicionados pelas instituições casamento, família, prole. O “viveram felizes para sempre” precisa de rega e poda diária. O mais comum é a relação entrar no ciclo vicioso, no efeito bola de neve. Desgaste que gera desinteresse, o original que se torna banal.

Sexo de qualidade, e não estamos a falar de malabarismos, aprende-se ou só vai lá quem nasce ensinado?

É um curso para ir tirando ao longo da vida, e pode chegar-se ao doutoramento honoris causa (risos). Depende de um sem número de circunstâncias. Por exemplo, ensinar a criança, rapaz ou rapariga, a brincar desde cedo com os genitais, sem a estigmatizar, para que em adulto o ponto de partida seja o entretenimento. Começa naquela imagem dos dois bebés nus a olharem para a sua pilinha e o seu pipi e a descobrirem a graça das diferenças. É muito importante que os pais criem espaços de intimidade para os filhos. Que não interfiram na sua privacidade. Mas que falem sempre abertamente de tudo. Lá está outra vez a diferença entre sexo e sexualidade. Uma coisa é falar sobre métodos contraceptivos, SIDA ou gravidez, outra explicar o que é um felattio ou um cunnilingus.

As primeiras experiências são determinantes?

Podem influenciar, mas há sempre um padrão de personalidade. Uma primeira experiência para um homem que ponha em causa a sua masculinidade pode ser traumatizante. Nisso, as mulheres estão mais protegidas. O seu histórico papel passivo (muito mentiroso, refira-se) liberta-as da responsabilidade do êxito.

Concorda que todos os homens chegam mortos de medo a uma nova relação sexual?

A tendência é para o homem (ou a mulher) irem cheios de expectativas. E não é determinante que ter experiência seja sinónimo de sucesso. Há elementos físico-químicos, há uma carga social, o poder. E uma pessoa vestida não desvenda as suas vergonhas, os seus medos.

É possível viver uma sexualidade plena sem um amor pleno? E, já agora, é mais improvável que uma mulher viva “o pleno” sem amor do que um homem na mesma condição?

Essa é uma questão irrespondível. Há casais que vivem “plenamente” nas suas rotinas entediantes (a volúpia do aborrecimento), e se lhes tirarem isso, roubam-lhes a “felicidade”. Quem é que diz a um casal com um elemento sádico e outro masoquista que não servem um para o outro, que não são uma união perfeita? De facto, há estudos que apontam a mulher como menos propensa a viver uma sexualidade plena sem amor, sem um contexto emocional agradável.

Os homens são menos exigentes?

Conseguem separar o sexo do amor com mais facilidade. Basta ver a clientela dos bordéis. O número de prostitutas é muitas vezes superior ao de prostitutos.

O “vale tudo” é sinónimo de uma sexualidade plena?

Não. É plena quando se encontra um patamar de entendimento com o outro parceiro.

Também passa por o outro aceitar um “não” na hora de fazer amor?

Absolutamente. Ninguém consegue ser igual nos seus desejos todos os dias, de ano para ano, numa relação dita estável. Os conflitos e as rejeições começam na incapacidade de o outro dizer (e o outro assumir) que não gosta de determinado gesto. Quando alguém diz que não gosta de uma coisa, não está a dizer que não gosta da pessoa. Embora, muitas vezes o que acontece é o outro sentir-se rejeitado e entrar em tristeza ou ir procurar fora.

Não há fórmulas nem prescrições médicas que digam que um “x” de vezes de relações é garantia de saúde na sexualidade.
Isso está ao critério de cada um. Se todos os dias é bom para uns, uma vez por mês chega e sobra para outros. A qualidade é o que está em causa.

Um homem ou mulher que tenha assomos diários – o protótipo da Samantha de Sexo e a Cidade – sofre obrigatoriamente de ninfomania ou é apenas mais “sensível”?

Isso é outro mito. Uma ninfomania só é diagnosticada quando o pensamento está em obsessão permanente com a ideia de fazer sexo. E nesse caso, ele ou ela faz com o que tiver de ser.

Há fundamento para dizer se as inibições femininas e masculinas são ela por ela?

Por acaso saiu agora um estudo esclarecedor. A falta de desejo é o principal motivo das inibições de ambos os sexos. A maioria dos casais que me procura queixa-se disto: o chamado ciclo vicioso da tampa. Ele começa por ter iniciativa, mas ela afasta-o. Ele sente-se rejeitado, ela deixa de abraçá-lo com medo que o abraço seja mal interpretado… mas as mãezinhas são muito responsáveis pelas inibições dos seus filhos quando não lhes dão a liberdade para se exprimirem desde pequenos. Ou os pais que exortam a masculinidade dos filhos, como se um homem tivesse de ser superior à mulher.

Como é a reacção dos homens consigo: ficam apavorados, esperam encontrar uma grande amante?

Falo só dos homens que chegam à consulta e que, quando vêem uma mulher, perguntam se podem trocar para um psicólogo. Ou então começam muito inibidos e acabam por se soltar quando percebem que o terapeuta fala de igual para igual. Se calhar até está mais à vontade para lhe revelar os mistérios do outro lado.


O humor é o melhor remédio para ultrapassar inibições? Ter cognomes carinhosos para o pénis e a vagina, como litle willy ou big jack, como recomendava um dos filmes psicanalíticos de Woody Allen?

O sexo é lúdico, não é um tema de conselho de ministros. Os portugueses são retrógrados na questão do mostrar o corpo. O oposto dos brasileiros, por exemplo. Mas as mentalidades levam gerações a mudar.

O poder é um afrodisíaco para um homem, mas pode ser um inibidor se estiver na mão da mulher?

O poder cria relações desiguais. E se for o caso da mulher a ser o líder (por razões económicas, por exemplo), o homem acanha-se. A carga social machista ainda está muito presente.

Mae West, uma das pioneiras da emancipação feminina, dizia que quando o parceiro é medíocre, é como um jogo de poker. Mais vale ter um bom jogo de mão.

A mulher deixou de ter de mendigar os afectos. Essa foi a maior conquista do nosso tempo. Pode dizer “Não me contento com isto” e sair porta fora. O “Antes só que mal acompanhado”. Tenho todo o direito de amar, de ser amado, de desejar e não desejar. E de não ter medo de assumir as minhas verdades interiores.

Recomenda às suas pacientes que façam sexo sem amor?

Digo apenas que se expandam e estejam disponíveis para viver relacionamentos, não necessariamente sexuais. Desde que seja verdadeiro para os dois envolvidos, não há nada a criticar.


As mulheres masturbam-se mais do que os homens?

Não tenho dados científicos para responder, mas as mulheres têm uma masturbação mais completa, mais rica em sensações. Quando descobrem o clítoris, é uma excitação.


O que é que elas mais esperam de um homem e vice-versa?

Afecto, companhia, um bom ouvinte… que lhes adivinhem o pensamento. As mulheres precisam muito mais de confirmação diária do sentimento. Os pequenos nadas. Sexualmente, a mulher é muito mais aberta ao diálogo. O maior erro é adiar tudo para as férias, a que se chega exausto.


Há uma actualização dos fetichismos, sobretudo com as facilidades da era virtual? Por exemplo, seguir o exemplo de Sharon Stone e limitar o número de peças de roupa ao mínimo, abdicando até do indispensável?

São fenómenos de moda. Os seguidores do sexo de elevador, do sexo na praia, do sexo nas piscinas, do sexo atado à cama, atrás da moita… e os filmes são o principal fornecedor de idealismos. O sexo virtual tem grandes adeptos e é de uma imaginação magnífica.
Deixou de se recorrer ao bocal do telefone fixo para entrarmos na era da imagem. Ou ao modo de vibração do telemóvel.

As mulheres confessam-lhe as suas fantasias?

A maioria vem à procura de soluções específicas. Disfunções, etc.

E a forma como comunicam, a linguagem, é directa ou é do género eufemista, como chamar espaço lúdico a uma sex shop?

Há histórias cómicas. Havia uma senhora que tinha muita vergonha de falar em orgasmos e chamava-lhes “aqueles arrepios na espinha”.

O “69” é um “31” para a maioria dos casais?

Os homens são mais propensos a esses números (risos). Mas acho que a matemática feminina não é limitada. Não leva nota negativa. Mas há muito quem não o faça por falta de flexibilidade ou por anatomias incompatíveis.
 
publicado por Mário Feijoca às 03:24 | comentar | favorito