Quando o livre-arbítrio se curva ao ego

(por Ronaldo Tikhomiroff )

O caminho que o ser humano deve percorrer durante sua vivência na Terra é definido, a cada momento, pelo seu livre-arbítrio. Uma qualidade que só ele possui e que deve escolher o passo seguinte a ser dado. Quando uma situação se apresenta, esta não acontece ao acaso, porém é o livre-arbítrio do homem que deve decidir sobre sua solução.

Sempre que uma situação, nova ou não, é apresentada ao ser humano, inicia-se um conflito entre sua mente (razão e emoção) e a sua intuição. A mente, facilmente manipulável, é alimentada por seu ego, o qual, dependendo de seu poder sobre o indivíduo, deturpa e desvia A sua decisão de maneira a satisfazê-lo melhor. São os indivíduos comandados pelo ego, onde o bem material, de qualquer nível ou natureza, está sempre à frente de qualquer bem espiritual.

Aí está o porque da existência do livre-arbítrio. Para que o homem possa crescer ele deve ouvir a sua intuição mais profunda, o seu Eu Interno, o qual é imune às emoções da matéria e à lógica humana, tão pequena e tão ilógica. À medida que o homem passa a decidir a sua vida ouvindo a intuição, o caminho do crescimento espiritual vai sendo traçado e tudo passa a fluir sem maiores obstáculos. Cada problema que surge é resolvido de uma só vez, nada restando para ser resgatado no futuro. Em contrapartida, as decisões tomadas pela mente material sempre nos deixam resquícios do problema mal-resolvido, provocando o seu retorno até ser definitivamente solucionado.

As decisões tomadas a partir do Eu Interno, onde o livre-arbítrio humano se curva à sua intuição e não à sua mente material, produzem uma sensação de conforto e bem-estar ímpares. Seria o verdadeiro "estar de bem com sua consciência". Por outro lado, as decisões oriundas da mente, onde o livre-arbítrio se curva, por ser fraco, ao ego humano, somente produz uma massagem de prazer, tão peculiar ao nosso ego.

A nossa vinda à vida terrena não acontece como um mero acaso biológico ou químico. A matéria envolvida no processo serve, por um lado para nos dar abrigo material à nossa essência, por outro para nos permitir cumprir nossas tarefas através dos conflitos entre os apelos materiais fabricados por nosso ego e o nosso Eu Interno. Tais conflitos devem ser resolvidos por nosso livre-arbítrio, onde as soluções de nível material são, invariavelmente, díspares da intenção de crescimento espiritual. Não existiria o bem sem a existência do mal. Tal qual o Yin - Yang da cultura oriental, o equilíbrio no crescimento espiritual do homem é atingido quando, tendo por referência o plano material, o seu livre-arbítrio escolhe a intuição, o seu vínculo com o plano espiritual.

De nada valeria uma decisão, qualquer que fosse, onde somente um lado se apresentasse: afinal, não haveria decisão nenhuma e, portanto, não haveria crescimento em nosso actual estágio de evolução. Um estágio onde o apelo material se faz necessário, onde o desapego ao bem material torna-se valoroso e imprescindível para o nosso crescimento. Para exercitarmos o desapego é necessária a existência do apelo material. São necessárias as armadilhas de nosso ego. Porém, mais que tudo, é necessário aprendermos a ouvir a nossa voz interior, o nosso canal com o Plano Superior.

Sempre que uma situação nos é apresentada, por mais disparatada que pareça, um exercício de desapego está-nos sendo solicitado. É a hora de colocarmos em prática o bom uso de nosso livre-arbítrio e procurarmos no nosso íntimo a decisão correcta. Os apelos materiais estarão sempre presentes. O nosso ego, por mais puro que nos possa parecer, também estará provocando as nossas emoções e a nossa razão para lhe darmos um pouco de alimento. Antes de nos deixarmos tomar por uma decisão, por mais pensada que nos pareça, não deixemos de ouvir o nosso "Eu Interno". Se ele estiver aquietado, se ele não se manifestar, a nossa mente estará livre para decidir. Caso contrário, ele por certo se manifestará e nos mostrará o caminho correcto. Cabe a nós, estarmos abertos para perceber a sua manifestação, sem permitir a interferência de nossa mente, já poluída e doente.

Se permitirmos que o nosso livre-arbítrio se curve ao nosso ego, certamente estaremos a deixar passar uma oportunidade de exercitarmos a nossa tarefa mais elevada. Estaremos sucumbindo aos apelos danosos da matéria e, por certo, estaremos dando um passo errado. Por mais que prejudiquemos o próximo, os maiores prejudicados seremos nós mesmos, pois não estaremos satisfazendo a expectativa de nosso Criador... infelizmente.

publicado por Mário Feijoca às 18:04 | comentar | favorito