Another Woman

2972t.jpg A vida é um candeeiro a petróleo. O amor também. Quando a combustão perece, porque fenece, há um choro crepuscular que cresce. E a luz desvanece. Apaga-se. Desaparece. Another Woman é isso, uma parábola existencialista a retratar a linha das mãos (será dos dedos?) que nos (en)sina o caminho, que nos diz o amanhã nem sempre azul e mavioso.

Mais que competente, pode dizer-se do filme. Bom. E adjectivá-lo de sério parece até descabido, ou não fosse Woody Allen o seu realizador. Mas assim é. Filme sério, bem sério. Com Woody fora do elenco - numa das poucas vezes que decidiu não mimosear a objectiva com os seus trejeitos desengonçados - a película galga devagar alguns dos mais melindrosos trilhos da natureza humana.

Another Woman é uma ode de Allen ao pessimismo, ao negativismo, à coisa ruim e indecorosa que é viver. Atido a um argumento exemplar e à densidade das personagens que tão bem trabalha, o realizador oferece-nos uma inesperadamente infeliz Marion (desempenho intenso, a roçar o brilhantismo, de Gena Rowlands). Superando até a personagem de Mia Farrow - sarcasticamente nomeada de Hope e que figura a ideia acabada de uma vida atroz, torpe, desgarrada - é em Marion, mulher de meia idade, brilhante académica e financeiramente resoluta, dizia, é nela que Allen deposita a maior carga do paradoxo existencialista. Se a primeira representa a alienação, o desapego, o abandono, o desespero de quem tem ainda tanto caminho, a outra parece querer cuspir longitudinalmente numa vida com tanto de perfeita como de lancinante.

Formalmente a película é imaculada. Na montagem Allen não arrisca mas cumpre. Aliás, o carácter inventivo do autor sempre passou muito mais pela palavra que pela coisa técnica - nos antípodas de Scorsese, que nos seus primeiros trabalhos se divertia a mostrar ao mundo o fabuloso e inventivo domínio técnico de que dispunha. A narrativa de Another Woman adensa-se através da parcimoniosa introdução de flashbacks propositados e reveladores (é num deles que conhecemos a personagem interpretada por Gene Hackman e o seu lugar na trama). Mas nem aqui o tom de incompreensão - mais que de injustiça - abranda: a admiração intelectual que se confunde com amor; a repressão das vontades carnais; a preferência parental por um dos filhos; o adultério; o aborto; os casamentos falhados. O nefasto e o grotesco no quotidiano. Narrado na primeira pessoa pela protagonista Marion, a obra está pejada de textos inteligentes, de elegância filosófica. A dada altura alguém questiona: «Uma recordação é algo que temos ou que perdemos?». Poderia ser este um bom mote para a fita: o filme do rememorar.

Num registo longe dos humores densos e bem conseguidos de A Mid summer Night's Sex Comedy e Sweet and Lowdown, e de comédiazinhas a roçar o dispensável, como ABC do Sexo ou Hollywood Ending, o realizador nova-iorquino reinventa uma vez mais a cidade natal - diga-se que desta vez sem grandes afazeres, uma vez que Another Woman é filme eminentemente interior. Claustrofóbico, até. Na crítica ao social e ao politicamente correcto, aos amores por conveniência (será conivência?) e ao conflito de interesses, talvez Another Woman se aproxime mais de Ana e As Suas Irmãs, apesar da toada claramente mais espirituosa deste último; na nebulosidade dos temas que aborda, e no modo cru como o faz, tem certamente no recente Match Point um seu parente próximo na pungente árvore genealógica que as obras de Allen compõem.

Rapidamente, e através de uma visão meramente parcelar e descuidada da filmologia de Woody Allen, facilmente se cai no erro de enumerar a suavidade, o burlesco e a ligeireza como únicos traços caracterizadores do cineasta. Porém, indo fundo, remexendo, percebe-se um autor não tão afastado da concepção kubrickiana como um dia ousei afirmar. Há no costumado tom parodiante de Allen uma dura carga pessimista em relação ao indivíduo - não tanto no sentido hobbesiano do termo (tão presente na obra de Stanley Kubrick) mas mais assente numa toada vincadamente niilista. E Another Woman é disso exemplo cabal.
publicado por Mário Feijoca às 20:25 | comentar | favorito