Não tentes adivinhar-me...

 

Descreveste em primeiro os sentidos,
em que a roupa nos rasga as noites
e os dias por escrito,
na pressa de te acabar em fim.

Nessa varanda vazia,
no teu gesto prateado, lavado,
reconheces os desejos
do mendigo em que me perdi.

Sabes bem que aquela lua não mente,
quando me diz que a gente se encontra
por acaso na vida,
por te ter esquecido assim.

E na forma que impões as paisagens,
como se o mundo fosse teu,
renego essa tua falsa força
no teu jeito, p'ra ser maior.

A tua sina não me seduz pelas marcas desalinhadas
essa mãos de quem não dorme mais
e leva os dias, roubando-os à gente que vive,
no modo como me vês e sentes,
como fazes a noite num brilho
e desprezas o sol que te fez corar
ou o horizonte para te sonhar,
num momento de fim de tempo,
naquele pedaço de terra que nunca foi teu
mas que devoraste, arrasaste e deixaste pó,
solfejos de um qualquer nome...
descrevendo os sentidos,
que para ti são roupas rasgadas na noite,
por não haver quem se amar! E das histórias que me contas,
apenas as linhas em branco me denunciam,
porque me dizes o que sou
porque me fazes acreditar que o mar
já não se esconde do céu,
e tentas adivinhar nos meus olhos
o medo que tenho do escuro,
por não haver por quem chorar...

(Texto que desconheço o autor, mas não resisti em o colocar no blog)

publicado por Mário Feijoca às 19:58 | comentar | favorito