08. O que desperta o sonho...

- Você é sempre assim, ou a sua alegria contagiante é apenas para me agradar e seduzir. Você é um homem deveras interessante demais para ser verdade. Não leve a mal esta minha observação, mas não estou habituada a ser tratada com tamanha deferência e cordialidade, e ainda para mais, desconfio sempre de todos os homens. E consigo sinto-me tranquila, admiravelmente tranquila!  O que para mim é completamente estranho e algo revelador... É nisto que admiro o ser humano, está sempre a revelar-se e a confrontar-se com novos desafios que lhe alimentam a alma e lhe acalmam o espírito, ao surpreenderem-nos quando menos esperamos.

E foi assim que chegámos ao parque de estacionamento... Com este lindo e profundo pensamento, desta mulher inquietante.

- Linda reflexão a sua, será que também é sempre assim tão organizada nas ideias, ao ponto de confiar num homem de que nada sabe a respeito dele? - O meu carro está ali, é aquele BM  preto.

- É talvez... Talvez, a intuição feminina, além de os bons e maus carácteres se destacarem, por isso mesmo,  se distinguem obviamente uns dos outros, com alguma facilidade. Mas mesmo assim, acrescentarei mais, que aí estamos em pé de igualdade, porque você também nada sabe de mim... - E tenho o meu carro lá mais ao fundo, fique aqui e aguarde que eu chegue para ir atrás de mim, vamos na direcção de Oeiras; e onde moro é no Alto da Barra. O meu é um Alfa Romeo cinzento metalizado. Sou mais modesta!

Riu-se, fazendo uma expressão de  piscar os olhos graciosamente...

Esperei junto ao carro e quando ela passou por mim, acenou-me com a mão para a seguir. Entrei no máquina - que me levaria até  à terra do desconhecido - dou à ignição pondo-o a trabalhar e segui-a em direcção ao meu destino que estava escrito nas estrelas esta manhã quando me levantei - Descemos a Rua do Alecrim em direcção ao Cais do Sodré, para apanharmos a  Av. 24 de Julho. Já na marginal ligo a música e ponho um C'd de Diana Kroll, para relaxar da tensão e aliviar os meus pensamentos e acendi um cigarro, simultaneamente. Sem nunca desviar os olhos do Alfa Romeo cinzento metalizado que ia à frente, fosse qual fosse o motivo...
Ela conduzia bem, mas excedia-se um pouco na velocidade, pois o ponteiro do meu conta quilómetros já atingia os 180km/h, levando, ela ainda, um bom avanço sobre mim, pelo que  chegámos ao local da sua residência num ápice. A sua casa era uma moradia de dois pisos, com uma arquitectura recente e de traços modernos com um jardim envolvente de aspecto agradável. Qual não é o meu espanto de estupefacção que fiquei completamente imobilizado de perplexidade quando olho o portão, a sua toponímia era exactamente o dez, na rua 10 de Junho...  Será que foi este o sinal que me percorreu o pensamento durante todo o dia? Ainda existem pessoas que duvidam dos sinais que sempre nos acompanham, mas nunca lhe atribuem a importância que merecem devidamente. Isto é o destino!... Será que será? A partir de hoje terei de estar mais atento a estes sinais, que à priori parecem insignificantes.

Tira-me a luz dos olhos - continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos - continuarei a ouvir-te
E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti
E, mesmo sem boca, posso chamar por ti.
Arranca-me os braços e tocar-te-ei

Com o meu coração como com uma mão...

Despedaça-me o coração - e o meu cérebro baterá
E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira,
Continuarei a trazer-te no meu sangue


- Linda casa você tem Maritó, parece-me que tudo aquilo que a acompanha é o brilho da luz porque o que você possui é tudo bonito, estou deveras impressionado com toda a beleza que anda a seu lado, assim como dentro de si.

- Obrigado pelo elogio!  Que hoje, já estou repleta deles e muito sinceramente, hoje sinto-me uma mulher feliz...  Até receio todo esta súbita felicidade. Entre António, não fique aí estagnado à porta! E não interprete mal o que acabei de dizer... Está bem? (...)

- Não quero nunca, Maritó, até acho, que nunca a irei interpretar mal, porque possivelmente, só perderia com isso de certeza absoluta...

- Pense sempre assim e nunca me perderá, lhe  garanto eu! É com cumplicidade e confiança mútua que se manterá uma sólida amizade. Que nos proporcionará criar projectos de enormes dimensões e sólidas estruturas, porque sem estes componentes, nada na nossa vida justificaria ter inteligência, e perderia toda a graça e todo o sentido de existirmos.

O romance é feito à velocidade da luz. Imagine-se o negro, escuro e profundo... lá as vozes dos sábios ecoam, das sábias crianças brincando, saltando de pé em pé... lá bem no fundo o sonho é tudo o que importa... Mas à superfície, vive-se a imaginação e o "era uma vez"...

publicado por Mário Feijoca às 01:39 | comentar | favorito