10. Paixão inquestionável...

Aquela boa escolha a que se referia era em relação à musica que tocava, evidentemente, mas para mim, foi noutro sentido, pois a eleita era sem a mais pequena oscilação de dúvida no meu pensamento, ela! Se era uma questão de escolher ela estava feita custasse-me aquilo que me custasse, tinha de possuir aquela mulher, porque apaixonado já eu estava, não tinha a mínima hesitação.

- Qual delas Maritó... A qual delas se está você a referir?

- Está a fazer-se de desentendido é? Ou está simplesmente a provocar situações para além do meu entendimento, ( riu-se com imensa satisfação por aquilo que tinha acabado de dizer - e finalizou ) a música o tema e o autor, foi muito bem escolhido, António...

- Eu sabia que você ia gostar, por alguma razão ele é seu, e foi certamente escolhido e comprado por si, mas também pensei que possivelmente já há muito tempo não o ouvia... Estou enganado?
E também sabia, ou por outra, penso que sei Maritó, a razão factual de você ter nascido, foi unicamente para neste preciso momento, destabilizar este simples ser pacato e modesto, fazendo-me seu servo, porque você tem-me totalmente a seus pés, podendo fazer de mim aquilo que entender, porque eu não lhe oferecerei qualquer resistência. Prometo!.. (sorrindo,  fazendo os gestos de cruzar os dedos)

- Não, não está! Só espero que nunca venhamos a sentir um pelo  outro, uma das partes do título do cd...
Você António, tem cada uma, que nem sei se está a brincar ou falando sério porque de facto, está constantemente a surpreender-me, mas acho que desta vez se excedeu. Não seja tão teatral que não é preciso. Comigo não!

E com este seu "know how" de demonstração elucidativa dos seus sentimentos, sentou-se no chão em frente à lareira a olhá-la fixamente por escassos segundos, eu mantinha-me de pé, sem saber bem o que iria acontecer a seguir. Quando ela me interrompe os pensamentos e levantando os olhos, pergunta-me:

- Afinal não chegou a servir-se de nenhuma bebida, não quer nada? Eu vou beber um cálice de "vinho do Porto". Também quer, que lhe sirva um?

Levantou-se num ápice, com a energia de uma gazela e foi saltitando nos bicos dos pés buscar as bebidas, sem esperar sequer pela minha resposta, voltou de seguida a passos mais lentos para não os entornar, sentando-se novamente no mesmo sítio em que estava antes. Segui-lhe os movimentos, sento-me também, no chão, em frente dela, estica-me o copo e propõe um brinde...

- A que brindamos, António?

- A que este dia não acabe... nunca! Um servo às suas ordens minha senhora...

Esta minha saída airosa originou tantas gargalhadas que as lágrimas brotaram de tanto rirmos, criando um ambiente agradável e descontraído.

- A ideia... até nem é má, mas íamos ficar isolados do resto do mundo! Mas concordo com a metáfora. Mas só respeitante ao dia não acabar hein...

Brindámos sem quase desviarmos os olhos um do outro. Um quadro perfeitamente romântico,  parecendo ter saído daquelas cenas hollywoodescas dos anos trinta.

Olhe!... Espere aí um segundito, que tenho ali umas coisas doces de arregalar os olhos, e vou buscar para irmos comendo a acompanhar...

Gostei da ideia, pois já tinha o estômago a exigir que também lhe dessem um pouco de atenção, dado que não tinha ingerido absolutamente mais nada desde o almoço, além de simples cafés.

Leonard Cohen Ouvir

publicado por Mário Feijoca às 00:03 | comentar | favorito